Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 25/10/2019

Tragédia. Morte. Luto. Esses são conceitos que caracterizam o processo de doação de órgãos na sociedade brasileira, que vem enfrentando déficits e lentidão, o que acaba por impedir que outras vidas sejam salvas. Nesse contexto, percebe-se a configuração de um grave problema de contornos específicos, em virtude da falta de racionalidade comum a momentos de luto e do silenciamento em torno do assunto.

Em primeira análise, a falta de um pensamento racional mostra-se como um dos desafios à resolução do problema. Segundo Hegel, um dos filósofos mais importantes da história, a razão rege o mundo. No entanto, verifica-se uma atuação da irracionalidade na questão da doação de órgãos, já que, infelizmente, o momento de tomada dessa decisão se dá, na maioria das vezes, regida pela emoção, em um momento de luto. Assim, sem a presença de uma lógica que permita às famílias tomarem decisões empáticas, que possam salvar outras vidas, esse problema tem sua intervenção dificultada.

Além disso, a lentidão na doação de órgãos encontra terra fértil no silenciamento. Nesse sentido, Habermas traz uma contribuição  relevante ao defender que a linguagem é uma verdadeira forma de ação. Desse modo, para que um problema como o da doação de órgãos seja resolvido, faz-se necessário discutir sobre, de modo que as famílias sejam incentivadas a optarem pela doação de órgãos antes mesmo do momento de luto, enquanto os integrantes ainda encontram-se vivos. No entanto, percebe-se uma lacuna no que se refere a essa questão, que ainda é muito silenciada, já que a morte em si é um grande tabu. Assim, trazer à pauta esse tema e debatê-lo amplamente aumentaria a chance de atuação nele.

Portanto, indubitavelmente, medidas são necessárias para resolver esse problema. Como solução, é preciso que as escolas de Ensino Médio, em parceria com a prefeitura, promovam um espaço para rodas de conversas e debates sobre a doação de órgãos. Tais eventos podem ocorrer no período extraclasse, contando com a presença dos professores e convidados especialistas da área da saúde. Além disso, não devem se limitar aos alunos, mas ser abertos à comunidade, a fim de que mais pessoas compreendam questões relativas ao tema e se tornem cidadãos mais atuantes na busca de resoluções. Em suma, é preciso que se aja sobre o problema, pois, como defendeu Simone Bevouir: “Cada um de nós somos responsáveis por tudo e por todos os seres humanos”.