Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 01/11/2019

O filósofo alemão Hegel, no século XIX, propõe uma analogia cujo teor auxilia a pensar nas questões sociais que envolvem o curso da história: “A coruja de minerva só voa ao anoitecer”. Nesse sentido, sua proposição revela que é preciso um decorrer de tempo a fim de que o homem alcance sabedoria para lidar com suas questões desafiadoras. Tendo isso em vista, pode-se perceber que, o dilema da doação de órgãos no Brasil toma forma devido ao Estado falhar em assegurar com inteligência uma ampla cobertura médica nacional, de modo que os entraves se fortificam devido à lenta mudança da sociedade civil e à negligência governamental.

A priori, é imperioso ressaltar que essa situação é corroborada por fatores familiares. Em vista da falta de esclarecimento acerca da importância da doação de órgãos, os indivíduos pouco se mobilizam em tornarem-se doadores, no qual essa negação, muita das vezes, é pautada em uma visão religiosa da vida. Decerto, esse pensamento torna-se senso comum, uma vez que a sociedade, geralmente, reproduz a concepção arcaica de ajuda ao próximo engessada na cultura do país, bem como aferiu o educador Paulo Freire ao dizer que o indivíduo não se encontra capaz de pensar criticamente a realidade à sua volta, acomodando e retirando de sua autonomia o processo de mudança social.

Além disso, há contratualmente a missão de a constituição ser cumprida por todos os governos. No entanto, é notável que o Estado não cumpre seu papel social como agente fornecedor de direitos mínimos, como a garantia de uma saúde pública de qualidade, haja vista os precários recursos médicos disponíveis em hospitais municipais e estaduais no que tange a disponibilidade de equipes aptas a realização das doações. Acerca disso, é cabível exemplificar dados coletados pelo Ministério da Saúde, em 2015, no qual consta que existem quase três vezes mais equipes médicas disponíveis na região sudeste em comparação a região nordeste do país. Logo, é substancial a alteração desse quadro que vai de encontro ao inalienável direito de saúde qualificada pertencente ao homem e assegurada pelo artigo 196 da Constituição Federal de 1988.

Por tudo isso, é mister que o Estado tome providências para amenizar o quadro das dificuldades enfrentadas pela doação de órgãos no Brasil. A fim de criar na sociedade o sentimento de coletividade e empatia, cabe ao Ministério da Saúde, em parceria com o Governo Federal criar, por meio de verbas governamentais, campanhas em redes sociais e emissoras abertas de televisão que mostrem a importância da doação de órgãos, trazendo médicos para auxiliar a população nas dúvidas que rodeiam essa temática, ajudando-os, do mesmo modo, a tornarem-se doadores. Desse modo, o Brasil será capaz de alçar o voo proposto por Hegel.