Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 28/10/2019

Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, ainda que cada sujeito possua sua individualidade, esta se entrelaça no contexto social dos diversos grupos e instituições das quais participa. Ao considerar esse olhar como ponto de partida para a discussão acerca dos dilemas na doação de órgãos, é nítida a influência de diversos atores sociais na construção dessa problemática. Torna-se pontual, nesse contexto, não apenas questionar como o Estado ainda carece no incentivo da doação de órgãos, mas também analisar seus impactos no organismo social.

A partir dessa problematização, cabe compreender como o Governo não se mostra eficaz no fomento à doação de órgãos, repercutindo negativamente nessa causa. Atesta-se, assim, o olhar de Bourdieu, na medida em que essa instituição influencia nas peculiaridades sociais do meio onde estão inseridos. Vale acrescentar, então, a falta de comunicação entre esses atores sociais como possibilitadora da persistência do problema, pois, à medida que esse contato entre o Estado e a sociedade não é fluido, no ponto de vista dessa doação, não há uma cativação, de fato, no procedimento e no aproveitamento que ainda pode se obter deste cenário. Dessa maneira, torna-se essencial o aparelhamento das esferas governamentais no fomento à comunicação e à propaganda da doação de órgãos.

Paralelamente à questão institucional, outro ponto relevante, nesse cenário, é como o contexto pós-moderno dificulta o combate ao tema. Constata-se, nessa perspectiva, o viés de Zygmunt Bauman, pois, em sua obra “O mal-estar na pós-modernidade”, o pensador advoga que o indivíduo contemporâneo age de maneira irracional por ser vitimado pela cegueira moral. Isso significa que a sociedade não alerta seus indivíduos para reconhecerem o potencial de ajuda desta doação e os métodos e procedimentos envolvidos como seguros, configurando-os cegos pela analogia do pensador. Em razão disso, a sociedade se afasta dessa causa pela falta de conhecimento do tema que, por vezes, é associado pelo senso comum a algo perigoso, justamente pela retirada do órgão, ou a algo não tão nobre, devido não reconhecerem a possibilidade de se salvar vidas. Configura-se como determinante, assim, a importância da reestipulação dos valores sociais para atrair a população na luta desta causa.

Entende-se, diante do exposto, a necessidade de mudanças serem implantadas para conter o quadro atual. A princípio, é fundamental que as Secretarias estaduais e municipais de Saúde fomentem o estímulo à doação pela criação de campanhas que, ao serem implantadas nas mídias tradicionais como a televisão e o rádio, criem um canal de comunicação que, por sua vez, chame a atenção do público para esta causa. Ademais, cabe aos Ministérios da Educação e da Saúde o desenvolvimento de uma nova política educacional que, ao ser aplicada desde a primeira infância, cria uma imagem positiva da doação de órgãos pela desmistificação das falácias populares dessa prática, estimulando-a. Com essas iniciativas, espera-se que o entrelaçar entre os agrupamentos sociais, proposto por Bourdieu, possa conduzir a relações mais humanizadas.