Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 26/10/2019

O Brasil é referência mundial quanto ao transplante de órgãos na rede pública de saúde, uma vez que, de acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 90% das cirurgias são feitas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Embora sua realização pelo SUS facilite o acesso da população aos transplantes, ainda não é o suficiente para diminuir a extensa fila de espera. Isso acontece, pois, a demanda por órgãos é muito maior do que o número de doadores. Pode-se citar como causa de tal panorama, especialmente, a recusa de muitas famílias em autorizar a doação dos órgãos do ente querido. Todavia, também é importante destacar que essa é uma situação delicada para os familiares, o que pode influenciar na decisão de aceitar a doação. Com efeito, evidencia-se a necessidade de remediar tal situação.

Primeiramente, é importante destacar que, conforme o Ministério da Saúde, há, aproximadamente, 44 mil pessoas na fila de espera, ao passo que, até o fim do ano, é esperado que se alcance o número de 3500 doadores. Como resultado de tal disparidade, é comum que a espera por um órgão seja longa, de modo que muitos pacientes morrem antes de conseguirem um transplante.

Outro aspecto de suma relevância, e que contribui para esse quadro, é a recusa de muitas famílias em permitir a doação. Isso pode ser ilustrado pelo dado divulgado pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, segundo o qual, em 2013, cerca de 40% dos familiares de pacientes com morte cerebral não autorizaram a doação. Tal fato é preocupante, visto que se trata de uma taxa expressiva e que, se a concessão desses órgãos fosse realizada, colaboraria para diminuir a fila de espera.

Por outro lado, também é importante considerar que a morte de um ente querido é uma ocasião emocionalmente sensível para a família. Logo, a decisão de permitir a doação das vísceras é feita em um momento inoportuno e em meio ao luto, o que pode influenciar na decisão final, especialmente se a abordagem da equipe responsável não for feita de forma respeitosa e adequada.

Conclui-se, portanto, que são necessárias medidas vindas de diferentes atores sociais para contornar o problema. Em primeiro lugar, o Ministério da Saúde deve promover treinamentos para os funcionários responsáveis pela abordagem da família, com o objetivo de melhorar o diálogo e aumentar as chances de uma boa recepção da proposta. Ademais, os próprios funcionários precisam ter empatia e respeitar o momento de luto dos familiares para que eles se sintam acolhidos. Também é necessário que as pessoas que queiram ser doadoras de órgãos avisem a família sobre sua decisão para, no caso de uma fatalidade, ela saber qual decisão tomar. Por fim, é preciso que o governo veicule campanhas sobre a doação de órgãos a diferentes mídias como forma de incentivo à população. Com tais ações, é possível salvar a vida de mais brasileiros.