Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 30/10/2019

Há cerca de 50 anos, ocorria o primeiro transplante cardíaco do país, acontecimento que revolucionou a medicina em terras tupiniquins. Paralelamente, no cenário brasileiro atual, observam-se desafios no processo de doação de órgãos. Essa perspectiva antagônica, é fruto tanto da recusa familiar perante a concessão dos órgãos, quanto da comunidade que pensa pouco no coletivo. Diante disso, torna-se fundamental a discussão desses aspectos para o pleno funcionamento da sociedade.

Em primeiro lugar, é importante destacar que, o desconsentimento da família de possíveis doadores, evidencia a passividade e o desconhecimento por parte dos cidadãos conquanto a importância desse gesto de altruísmo. De tal forma, segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, a demanda por transplantes, é muito maior do que a oferta, o que corrobora com a perspicácia de que, sem doador, não há transplante. Lê-se, portanto, como nociva, a percepção de que, em um país oficialmente laico e liberal como o Brasil, aspectos culturais como o tabu ante o defronte com a morte e a falta de informações, acirrem o impasse parental na captação de órgãos.

Além disso, presencia-se, hodiernamente, uma falta de coesão do tecido social, que reverbera em uma postura individualista e desinteressada na dor do outro. Analogamente, para o escritor Franz Kafka, a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana, logo, através da solidariedade da adoção, muitas vidas podem vir a ser salvas em detrimento da vida que cessou. Desse modo, a falta de empatia, pode impossibilitar que muitos pacientes que aguardam longa data em filas de espera, tenham sua qualidade de vida assegurada.

Destarte, é mister que o Estado tome providencias para atenuar o panorama vigente. Portanto, urge que o Ministério da Saúde, destine parte de suas verbas para a promoção de campanhas nacionais de conscientização acerca da doação de órgãos, garantindo, por meio dos veículos de comunicação, que a informação seja disseminada para toda a população. Espera-se com isso, que essa intrínseca prática de caridade, cuja origem marcou a história da medicina em décadas passadas, possa beneficiar o maior número de brasileiros.