Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 30/10/2019

Na série “Grey’s Anatomy”, o personagem Clark é salvo por um rim após anos de espera na Fila do Transplante. Infelizmente, fora das telas, nem todos os brasileiros possuem essa sorte. Há uma negligencia do Estado tanto em informar a população a respeito dos transplantes, quanto em ampliar a legislação sobre a doação de órgãos. Consequentemente, surge um preocupante número de cidadãos morrendo por não terem doadores disponíveis e o tráfico ilegal de órgãos. Assim, essa problemática é inconcebível e esses dilemas necessitam de um olhar mais crítico de enfrentamento.

Em primeiro lugar, é importante destacar o descaso estatal em prover normas que garantam a autonomia dos corpos dos brasileiros e, assim, facilitar a concessão de órgãos. De acordo com a Lei Nº 9434, somente familiares podem decidir se as partes humanas de seus entes queridos poderão ser doadas no momento da morte, tirando a liberdade de escolha de cada cidadão sobre seus órgãos. Essa arbitrariedade mitiga as doações, visto que as famílias, nesses momentos de luto, estão incapazes de pensarem racionalmente. Além disso, há um carência de debate público que incentive e informe os cidadãos sobre o funcionamento de transplantes. Segundo dados do site G1, essa ignorância transforma o tema da doação em um assunto extremamente assustador e novo para os brasileiros, o que intensifica as negativas de doações. Assim, a passividade do Estado é conivente com esse caos.

Por conseguinte, verifica-se o espantoso número de pacientes que morrem em leitos à espera de órgãos. Ainda que, segundo a Agencia Brasil, tenha havido um aumento de doadores nos últimos anos, mais de 45% dos brasileiros da Lista de Transplante não são contemplados. Esse déficit de doações causa um pânico social e fomenta o mercado ilegal de órgãos. Um exemplo disso é a quadrilha Gedyle que age no país comercializando ilegalmente rins, córneas e até pele humana para famílias abastadas que necessitam de transplantes. O que evidencia não apenas um perigo a saúde dos indivíduos submetidos a cirurgias clandestinas, como também um problema de segurança pública.

Logo, a partir da negligencia do Estado em garantir legalmente a autonomia corporal dos cidadãos, assim como conscientiza-los a respeito das doações de órgãos, surgem inúmeras mortes de pacientes à espera de transplantes e os perigos do tráfico de órgãos. Assim, urge que o Estado, por meio de decretos, crie uma norma que permita o cidadão optar por ser um doador de órgãos, retirando esse peso sobre os familiares e aliviando o sofrimento no momento das mortes. Além disso, é necessário promover campanhas informativas em canais abertos de tv, jornais e cartazes, revelando a importância de doar órgãos e educando sobre o procedimento dos transplantes para que esse assunto seja amplamente desmistificado. Assim, milhares Clarkes brasileiros poderão ser salvos e o tráfico, extinto.