Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 30/10/2019
Na série “Sob Pressão”, original da globo, é exibido, em um de seus episódios, os imbróglios jurídicos e familiares enfrentados pelos médicos ao almejarem a retirada do coração de um indivíduo com falência cerebral para utilizá-lo em uma criança que precisava dele. Embora seja uma obra ficcional, a dramaturgia apresenta características que se correlacionam com a realidade brasileira, pois, o sistema de saúde nacional apresenta uma escassa reserva de orgãos, a qual é causada pelo preconceito fruto do senso comum em consonância com a ausência de políticas efetivas destinadas à aderência da população para a causa.
Primeiramente, cabe destacar a teoria de geógrafo alemão Friedrich Ratzel a qual afirma que o indivíduo passa a comportar-se conforme os valores refletidos pelo meio que ele convive. Com base nessa ideia, é inteligível que o preconceito estabelecido contra a doação de orgãos trata-se de um fato cultural perpassante de diversas gerações de modo a ser fundamentado em argumentos precipitados que ameaçam qualquer forma de reflexão individual que ponham em discussão a problemática. Dessa forma, ao indivíduo viver em um espaço onde a tradição é marcada pela banalização desse desafio e os contrários são vítimas da exclusão social, ele passa a agir de acordo com esses preceitos, de maneira a contribuir, intrinsecamente, para a perpetuação da situação.
Outrossim, é válido examinar a frágil gerência pública e educacional em propor a devida informação à sociedade acerca do desafio; o que proporciona, diretamente, a manutenção das dificuldades enfrentadas pelos enfermos. De acordo com a concepção de Thomas More, em seu livro “Utopia”, a sociedade é resumida a um agrupamento moldado pelas injustiças sociais que devem ser sanadas pela criação de uma comunidade humana. Sendo assim, à medida que o processo de conscientização fica restrito a algumas páginas virtuais, o ato de doar permanece como um tabu e o tráfico negro de orgãos - que causa a morte ou vulnerabilidade das vítimas - é contribuído indiretamente.
Depreende-se, portanto, que medidas urgentes aconteçam para que os problemas citados deixem de ser uma realidade . As instituições escolares, à vista disso, devem realizar projetos de orientação sobre a importância da doação de orgãos, a partir de atividades lúdicas e palestras em parceria com acadêmicos do curso de medicina, para que os discentes obtenham a sabedoria do impacto social positivo que ocasionarão ao tornar-se aderente à respectiva campanha. Também, faz-se imperativo que redes televisivas exponham casos especiais sobre o sofrimento dos dependentes de orgãos a fim de que se tenha uma relevância nacional e os manifestos preconceituosos sejam atenuados. Dessa maneira, será possível que o Estado justo, idealizado por Thomas, não represente uma ilusão.