Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 30/10/2019

Na série estadunidense ‘‘Grey’s Anatomy’’ é retratada, cotidianamente, a questão da doação de órgãos. Na ficção, pacientes e médicos sofrem com a longa lista de espera, o que acarreta, na maioria dos casos, na morte dos pacientes. Fora da ficção, a conjuntura contemporânea não está tão distante da realidade da série, tendo em vista os dilemas que cercam a doação de órgãos. Sob essa ótica, torna-se mister analisar a falha governamental e a reusa da família como fator causador desses dilemas.

A priori, convém citar o pensamento do filósofo Nicolau Maquiavel: ‘‘As ações humanas são condicionadas pelo meio social em que estão inseridas’’. Nesse sentido, as ações dos indivíduos são limitadas pelas ações da sociedade. Dessa forma, faz-se necessário averiguar a ineficácia governamental no que tange a conscientização da sociedade civil sobre a importância da doação de órgãos. Em decorrência disso, os cidadãos tendem a se tornar apáticos quanto a doação e, consequentemente, a lista de espera torna-se maior, visto que a falta de criticismo para analisar como a doação é um ato de solidariedade, faz com que os indivíduos não permitam a efetivação do processo.

Em segundo plano, a recusa familiar em doar os órgãos do ente querido é um dos dilemas da doação, uma vez que se o parente não permitir, a contemplação do processo não é realizada. Sob essa perspectiva, segundo o filósofo Zygmunt Bauman, a sociedade sofre com uma falta de alteridade, ou seja, falta de se colocar no lugar do outro. Analogamente, ao analisar a questão familiar como impasse para a doação, torna-se evidente a falta de alteridade, haja vista que ao desconsiderar o desejo do falecido, os pacientes na lista de espera são prejudicados. Portanto, torna-se notória a falha no sistema vigente em garantir a efetivação da vontade pessoal do falecido.

Destarte, medidas devem ser efetivadas a fim de mitigar o cenário vigente. É de competência do Governo a efetivação de campanhas, em parceria com a mídia, por meio da presença cidadãos que tiveram a vida mudada por uma doação, com finalidade de conscientizar a população. Ademais, cabe ao Ministério da Saúde a criação de um documento que prevê a doação obrigatória, por intermédio da assinatura do paciente em vida e juntamente com a assinatura de um familiar presente, com intuito de evitar que parentes decidam não arcar com as escolhas do falecido.