Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 30/10/2019

“Nada é permanente, exceto a mudança”, já afirmava o pensador grego Heráclito, a fim de mostrar a transitoriedade existente no mundo. Nessa perspectiva, cabe ao homem agir com o intuito de mudar seus caminhos. Assim, ao se analisar o dilema da doação de órgãos no Brasil, é possível perceber que a falta de informação e debate sobre o assunto somado a manutenção de dilemas éticos são obstáculos às transformações que essa situação requer.

Em primeiro lugar, é preciso observar que há um pequeno espaço destinado a esclarecer as dúvidas referentes à doação de órgãos na sociedade o que, consequentemente, gera uma apatia a respeito do assunto. Tal conjuntura se assemelha ao pensamento do filósofo Blaise Pascal, o qual diz que “o homem sempre está disposto a negar tudo aquilo que não conhece”. Logo, pessoas que não estão em contato com profissionais da saúde ou não possuem parentes na fila de espera do transplante acabam por desconsiderar a possibilidade de ser um doador. Como resultado, percebe-se que, segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), em 2016, o número de brasileiros na fila de doação aumentou em mais de 1000 pessoas, comprovando a necessidade de mudança nesse cenário.      Vale ressaltar, ainda, que o fato de alguns indivíduos possuírem costumes pautados na religiosidade exacerbada e dilemas éticos torna-se um empecilho à doação. Isso ocorre quando, por exemplo, uma pessoa é decretada com morte cerebral e os familiares não aceitam, não só pelo fato de grande parte não conhecer o processo de falecimento encefálico, mas também da crença que, por meio da fé, ela poderá acordar, evento que contraria os casos estudados pela ciência. Visto isso, as filas de espera para conseguir um órgão saudável aumentam e muitas vezes, infelizmente as pessoas que necessitam do mesmo morrem antes de serem chamadas para a cirurgia. Análogo a tal perspectiva, a fotografa Suha Dabit registra o sofrimento de famílias que estão à espera de um doador compatível nos hospitais e, com isso, tenta conscientizar as pessoas sobre a importância da quebra dos preconceitos morais.

Por isso, é necessário que o Estado tome providências a fim de superar esse impasse. Desse modo, para que a doação de órgãos torne-se uma atitude comum no Brasil urge, portanto, que o Poder Judiciário constitua, por meio de novas legislações pautadas nos estudos da Associação brasileira de Transplante de Órgãos, metas para a criação e propagação de campanhas explicativas sobre o processo de doação. Nesse ínterim, com o objetivo de aumentar o número de doadores e desconstruir ideias equivocadas acerca do assunto por meio desses planos, o tempo de espera na fila de um órgão será diminuído e as chances de sobreviver aumentadas. Por fim, a transformação idealizada por Heráclito poderá ser feita.