Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 30/10/2019

De acordo com o filósofo Émile Durkheim, em sua teoria da solidariedade orgânica, o autor revela um estado sobre as relações filântrópicas em uma sociedade complexa. Embora tenha vivenciado outra época, a teoria do filósofo respalda em assuntos contemporâneos, por exemplo, a questão da doação de órgãos. Diante dessa temática, dois aspectos problemáticos fazem-se relevantes: o motivo pela negação da doação e a falta de uma medida do poder público para garantir um maior número de doadores.

Mormente, é importante relacionar as consequências da morte e seu impacto para a decisão familiar de doação. Diante dessa perspectiva, é evidente que o modo de tratamento da rede de saúde para com a família é um assunto sem ensaio prévio -não há o ensino de atendimento- e por pré-conceitos, a doação de órgãos é entendida de forma negativa -devido à negação da morte- ou seja, a decisão da doação por parte dos familiares é mediante a dor da morte e emotiva, o que pode ocasionar à repulsa imediata da doação. Prova disso é a pesquisa da Associação Brasileira de Transporte de Órgãos (ABTO), consta que 43% das famílias negaram a doação em caso de morte encefálica. Dessa forma, as relações de tratamento pós-morte é fator decisivo para a resposta da família.

Ademais, a falta de medidas Governamentais para transformar tal cenário é determinante para demora da fila de transplante. De acordo com o sociólogo, Gilberto Dimenstein, em sua teoria de “cidadania de papel”, os direitos cidadãos previstos no âmbito legislativo é destoante da realidade, e tem a finalidade de representar o bem-estar social utópico. De forma análoga, no cenário de doações de órgãos, a falta de medidas Governamentais para a infraestrutura, transporte e alerta à população, configuram como atitudes negligentes do Estado, o qual atua diretamente para a manutenção dessa conjuntura. Desse modo, as decisões do poder público interferem para o baixo número de doações de Órgãos.

Urge, destarte, uma intervenção Governamental parra mudar o parâmetro de doações no Brasil. Para isso, cabe ao Ministério da Saúde (MS) criar um projeto “pró-vida”, que vise oferecer aos hospitais públicos um psicólogo que encarregue de dialogar com a família pós-morte, de maneira que a comunicação não seja invasiva e inapropriada, com o intuito de desmitificar sobre a negatividade da doação de órgãos com um atendimento especializado. Paralelamente, o Governo Federal deve deslocar verbas públicas para redistribuir para as associações de doações (tanto públicas, quanto ONG’s) por meio da aprovação do poder legislativo a fim de melhorar a infraestrutura dos hospitais. Somente assim, a ideia de solidariedade de Émile Durkheim será possível no cenário hodierno.