Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 30/10/2019
‘‘Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem’’. O excerto do livro ‘‘Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago’’ critica uma sociedade invisual ao seu contexto. Analogamente, tal obra ilustra o cenário contemporâneo, uma vez que o corpo social é inobservante sobre os dilemas da doação de órgãos, fruto da negligência governamental e de estruturas comportamentais.
A princípio, o descaso estatal contribui para o quadro vigente. Nesse sentido, o iluminista Rosseau afirma o papel do Estado em garantias sociais, contudo a prática deturpa a teoria. Outrossim, isso se evidência na falta de investimentos em infraestrutura hospitalar, medida que com condições necessárias para implantar roteiros técnicos no transplante, faria o processo ser mais eficiente, mas devido a falta de subsídios, isso não ocorre. Dessa forma, é inaceitável que com as altas taxas de impostos e tributos cobrados no país, o Poder Público não seja capaz de não apenas diminuir a fila de espera para doação, como também de garantir o direito à vida assegurado pela Constituição.
Não obstante, a rejeição familiar corrobora a continuidade da questão. Mormente, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, 47% das famílias se recusam a doar os órgãos do parente falecido. Sob essa ótica, o dado é reflexo, principalmente, segundo o filósofo Focault, da persistência coletiva em tratar como tabu assuntos que causam desconforto, como a morte, o que dificulta o diálogo sobre o indivíduo em se tornar doador. Dessa maneira, é inadmissível que o tecido social não tenha a percepção de que apesar da dor pela perda, tal ato de solidariedade pode salvar outras vidas.
Torna-se evidente, portanto, que os dilemas da doação de órgãos necessitam de maior notabilidade. Logo, o Tribunal de Contas da União deve direcionar capital que, por intermédio do Ministério da Saúde, será revertido em melhorias na saúde pública. Ademais, essa ação será feita por meio de investimentos nos centros cirúrgicos dos hospitais e cursos que simulem o processo para equipe médica. Além disso, terá abordagens que enfatizem a comunicação e o acolhimento familiar do paciente, com o intuito de diminuir a recusa parental e aumentar os números de transplantes realizados. Sendo assim, como proferiu Saramago, ‘‘Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.’’