Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 31/10/2019
No filme “Frankenstein”, há o surgimento de um ser vivo a partir do transplante de vários órgãos. Fora da ficção, em menor escala, essa prática é bastante positiva e ajuda a salvar milhares de vidas no Brasil. No entanto, apesar dos benefícios, ainda existe um grande déficit de doações dessas estruturas corporais, seja pela hereditariedade de comportamentos sociais, seja pela ineficiência do Estado, o que torna necessária a discussão acerca dessa problemática.
Primeiramente, a influência da sociedade sobre o indivíduo se revela uma das raízes do problema. De acordo com os estudos do psicanalista Wilhelm Reich, a formação do caráter é reflexo da interação do indivíduo com o meio o qual habita nos primeiros anos de vida. Sob essa perspectiva, muitos jovens crescem em ambientes que predominam valores egoístas, os quais são apropriados pelos pequenos, de forma a perpetuar tais princípios negativos no tecido social, o que dificulta o surgimentos de ações altruístas, como a doação de órgãos. Como prova disso, a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos afirmou que o principal motivo para a não doação é a recusa familiar, que corresponde a quase metade dos casos que negam essa cessão, notavelmente por questões culturais do país.
Além disso, outro aspecto agravante do quadro exposto é a falha atuação do Governo. A Carta Magna brasileira garante a todos os cidadãos o direito à informação. Porém, sob inobservância dos governantes, a realidade da nação vai de encontro a essa premissa, tendo visto a grande desinformação da comunidade quanto à concessão das estruturas abordadas e a carência de campanhas de incentivo a esses atos. Esse cenário, em consonância com o pensamento do psicanalista Sigmund Freud, o qual reconhece que o desconhecido gera perplexidade e resistência no ser humano, acarreta a persistência dessa mácula, de maneira antagônica ao progresso pátrio.
Portanto, a defasagem no panorama de doações de órgãos se mostra uma barreira a ser superada no território nacional. Para isso, é necessário, precipuamente, que o Estado juntamente com a mídia, por meio da maior disponibilização de recursos destinados à captação de órgãos, intensifique as campanhas relativas a esse tema, para que haja o incentivo à doação e o crescimento do respectivo índice, de modo a suprir a demanda nacional vigente. Por fim, o Ministério de Educação deve, mediante palestras e afins, promover a difusão de informações acerca das atitudes caritativas antes citadas, assim como os benefícios delas para o país, com o intuito de retirar os preconceitos enraizados da sociedade e estimulá-la a doar, pois, como disse Immanuel Kant, “O homem é o que a educação faz dele”.