Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 30/10/2019
No livro “Utopia”, do pensador inglês Thomas More, é descrita uma sociedade impecável, na qual tecido social se uniformiza pela existência de ideais altruístas. Contudo, o que se verifica na situação hodierna é o oposto da retração do escritor, uma vez que a doação de órgãos não é exercida com frequência suficiente no Brasil, apontando obstáculos, os quais atrasam a materialização das concepções caridosas de More. Esse contexto adverso é resultado tanto da ação ineficaz do governo para convencer novos doadores, quanto do conservadorismo das famílias dos concessores. Então, torna-se essencial a discussão desses pontos, a fim do amplo desempenho da coletividade.
Em primeira abordagem, é fundamental destacar que o problema procede da atividade insuficiente dos setores governamentais no que se refere à geração de meios que atraiam novos doadores. Segundo o filósofo contratualista Thomas Hobbes, o Estado é responsável por garantir o bem-estar da população; no entanto, isso não ocorre no país quando observa-se o tempo de espera de indivíduos necessitados de órgãos. Devido à falta de atuação das autoridades, as pessoas não se sentem encorajadas a serem doadoras, fazendo com que centenas de cidadãos com problemas graves de saúde morram antes de receberem a doação. Assim, faz-se necessária a remodelação dessa conduta para assegurar o objetivo estatal hobbesiano.
Outrossim, é impreterível salientar o conservadorismo das possíveis famílias doadoras como impulsionador do impasse. Por exemplo, em alguns casos, os parentes do falecido negam o pedido da concessão dos órgãos por crer que isso ofenderá a memória do filho, cônjuge, pai ou irmão morto. Partindo desse pressuposto, isso se configura como um pensamento errôneo, já que a perda de uma vida pode ressignificar a esperança para outras, perpetuando um bom legado do falecido. Logo, essa postura ultrapassada dos familiares adia a resolução do imbróglio e colabora para continuidade desse cenário nocivo.
Destarte, entende-se que a insuficiência de órgãos doados é fruto de outras problemáticas sociais. Com o escopo de potencializar essa concessão, urge que o Governo, na figura do Ministério da Comunicação, conscientize a população e as famílias dos possíveis doadores a realizarem esse ato grandioso e altruísta. A conscientização será feita por meio de profissionais especializados em debater o assunto, que atuarão em hospitais para conversarem com pessoas as quais esperam um atendimento médico, levando a informação diretamente e derrubando ideias contrárias dos parentes. Por fim, surgirá um ambiente propício para atenuação, em médio e longo prazo, dos efeitos deletérios do problema, bem como a comunidade se aproximará da Utopia de More.