Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 31/10/2019

A série “Sob Pressão” da Globo, em um de seus episódios, conta a história de uma mãe que perde seu filho em um acidente de moto e não aceita de imediato a doação dos órgãos dele. Apesar de ficcional, a obra apresenta um retrato verossímil da realidade, uma vez que a fila de esperar para um transplante só faz crescer. Sob essa perspectiva, a carência do debate sobre esse ato que salva vidas e a má distribuição das equipes médica no Brasil são desafios a serem combatidos.

Em primeiro lugar, é importante notar que a discussão sobre a doação de órgãos é escassa, pois ainda é considerada um tabu social. Nesse sentido, a existência de mitos no que tange o processo é responsável por torná-la mais difícil, já que o desconhecimento de muitos indivíduos sobre a irreversibilidade da morte encefálica e a ideia errônea da comercialização dos órgãos doados geram a não adesão de boa parte dos cidadãos à causa. Tal conjuntura se relaciona com a “Teoria dos Ídolos” do filósofo Francis Bacon, a qual as falsas percepções humanas atrapalham a compreensão da realidade. Dessa maneira, pelo fato de esse assunto não ser discutido e desmistificado, muitas pessoas que apresentam a vontade de se tornar doadores não alertam a família, o que impede o processo de consentimento familiar para realização da doação.

Ademais, cabe analisar que embora existam grandes equipes médicas que realizam as cirurgias de transplantes, elas são concentradas nas regiões sul e sudeste. De acordo com Lúcio Pacheco, presidente da Associação Brasileira Transplante Órgãos, enquanto São Paulo tem mais de vinte equipes para realizar cirurgia de fígado, em alguns outros estados, como Mato Grosso, não há nenhuma. Sob essa ótica, percebe-se que apenas algumas regiões brasileiras apresentam estrutura para efetivar o transplante de órgãos, visto que a disponibilidade de mão de obra médica é desigual e faltam incentivos governamentais para amenizar essa disparidade entre os estados brasileiros. Desse modo, pessoas que aguardam por órgãos e não moram nos grandes centros são desfavorecidas no processo de espera, tendo em vista a curta duração da vitalidade de um órgão a ser transplantado a longas distâncias entre os territórios.

Portanto, a observação crítica dos fatos reflete a urgência de medidas para aumentar o número de transplantes no Brasil. Para isso, é essencial a ação do Ministério da Saúde, em parceria com a mídia televisiva, devido ao seu grande poder alcance nacional, divulgar propagandas educativas, com o médicos e pessoas que aguardam ajuda, sobre as etapas do processo e a importância desse ato. Esse procedimento deve ser realizado para conscientizar e promover o debate entre os familiares.