Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 31/10/2019
O escritor austríaco Stefan Zweig ao fugir da perseguição nazista na Europa escolheu o Brasil como nova pátria na metade do século XX. Já em solo brasileiro, escreveu o livro: “Brasil, país do futuro”. Entretanto, é possível perceber certo distanciamento desse título com a realidade nacional ao analisar a negligência do poder público em relação à doação de órgãos nos dias atuais. Isso se evidência na centralização hospitalar e na falta de informações sobre o assunto. Destarte, cabe a análise das causas e medidas desse impasse.
No que se refere à centralização, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Brasil abrange 76% dos seus hospitais aptos para a realização de transplantes nas capitais brasileiras. Assim, esses dados refletem a concentração dos recursos nas grandes cidades. Diante disso, é inaceitável que a desorganização logística do governo seja o principal responsável pela ausência de saúde pública gratuita e de qualidade, como prescrito no Artigo 5º da Constituição Federal.
Faz-se mister, ainda, salientar a desinformação da sociedade como impulsionador do problema. Segundo Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, a falta de solidez nas relações sociais, políticas e econômicas é característica da “Modernidade Líquida” vivida no século XXI. Nesse contexto, o desconhecimento da população sobre doação de órgãos é um dilema enfrentado pela família na hora da decisão sobre a concessão, e acaba por enterrar órgãos que salvariam vidas. Assim, a fraca relação social que se vive nos dias atuais, corrobora os inúmeros casos de recusa na doação e defere a tese de Bauman.
Infere-se, portanto, a necessidade de medidas a fim de aumentar o número de doações no Brasil. Logo, o Ministério da Saúde, pasta responsável por oferecer condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde da população, deve criar um projeto de expansão dos hospitais públicos aptos a realizarem transplantes de órgãos, por meio de projeto público-privado “Doe, salve vidas”, para que mais regiões possam ser atendidas com qualidade. Espera-se, com isso, a descentralização dos recursos públicos.