Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 31/10/2019

Parafraseando a primeira lei newtoniana, um corpo não terá seu movimento alterado a menos que forças externas consideráveis ajam sobre ele, sobressaindo sua inércia. Esse é, infelizmente, o hodierno cenário dos dilemas da doação de órgãos: uma inércia que perdura em detrimento da quantidade escassa de doadores, além do preconceito para com o processo. Sendo assim, convém analisar os principais pilares dessa chaga social.

Vale ressaltar, a princípio, que preocupações associadas a diminuta doação de órgãos, não apenas existem, como vêm crescendo diariamente. Tal cenário anda intrinsecamente ligado à pequena quantidade de doadores, seja pela ausência de conformidade alegada aos familiares precedentemente ao óbito, seja pelo apego ao ente querido, promovendo um conflito entre o desprendimento e a solidariedade aos pacientes que necessitam do transplante para uma melhor qualidade de vida. Ademais, de maneira análoga, o sociólogo Zymunt Bauman defende, na obra “Modernidade Líquida”, que o individualismo é uma das principais características - e o maior conflito - da pós-modernidade e, consequentemente, parcela da população tende a pensar somente em si. Por conseguinte, determinado comportamento favorece no agravamento do atual quadro e, também, no aumento do número de pessoas à espera de transplantes.

Sob outro prisma, faz mister, ainda, salientar que Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, alegou em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não propagou para criatura sequer o legado de nossa miséria; possivelmente, hoje, ele percebesse quão certeira foi sua decisão: a hodierna conjuntura de prejulgamentos associadas à transplantação de órgãos é uma das faces mais lamentáveis do âmbito mundial. Outrossim, crenças e padrões culturais do corpo social são o pilar para cenário abordado, tendo em vista que propagam paradigmas errôneos a respeito do procedimento, favorecendo em familiares receosos e indispostos a colaborar com a diminuição do impasse existencial. Nesse enquadramento, impulsionar-se-á o dilema e a formar-se-á, progressivamente, uma problemática social com dimensões cada vez maiores.

Destarte, são necessárias medidas que combatam a realidade debatida anteriormente. Assim sendo, o Ministério da Saúde deve promover ações midiáticas, por meio de propagandas televisivas e radiofônicas, entrevistas e palestras, ministradas por médicos, que informem a população sobre a importância da doação de órgãos e como ocorre o processo de transplante. Tais feitos devem ser realizados a fim de desmitificar tabus e aumentar a adesão ao método. Somente assim, alcançar-se-ão forças suficientes que rompam a inércia, presente no século XXI, argumentada por Newton.