Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 01/11/2019
O sistema público de saúde brasileiro, sem dúvida, enfrenta inúmeros problemas. Entre as questões mais alarmantes encontra-se a doação de órgãos, uma vez que o transplante é uma corrida contra o relógio, na qual o prêmio tão esperado resume-se aos direitos fundamentais à vida e à saúde, garantidos pela Constituição Federal. Em suma, os pacientes que aguardam a doação de um órgão sofrem com o desgaste físico, mas também mental.
Primeiramente, o transplante de órgãos, devido a sua complexidade, é recomendado em casos de patologias severas, cujos tratamentos conservadores não obtiveram prognósticos satisfatórios. Nesse contexto, a doação de órgãos é um ato de profundo respeito à vida humana. Tal atitude pode ser praticada em vida, desde que não seja comprometida a saúde do agente doador, como nos casos de determinadas estruturas fisiológicas: rim, fígado, pulmão e medula óssea. Já os demais, somente podem ser doados após a constatação da morte encefálica e com a permissão dos familiares. No entanto, a relutância das famílias em autorizar a doação dos órgãos, infelizmente, perdura dentro cenário nacional, tanto por questão religiosa quanto por desconhecimento da morte cerebral.
Apesar de o Brasil ser o segundo maior país do mundo em realização de transplantes, há ainda muito o que fazer, visto que a rede de assistência privada pouco participa dos procedimentos cirúrgicos e os hospitais públicos de grande complexidade, em sua maioria estão concentrados nos grandes centros urbanos. Ademais, são extensos os gastos públicos por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) decorrentes do tratamento de pacientes crônicos que aguardam o transplante. Esses pacientes estão permanentemente nas unidades de saúde necessitando de intervenções técnicas e de insumos hospitalares. Desta forma, é fato que ao realizar o transplante os respectivos custos serão reduzidos drasticamente. Mais um fator favorável à doação de órgãos, refere-se ao bem estar que esta ação promove às famílias envolvidas - doador e receptor- conforme revelado na teoria de Platão, quanto à necessidade de se pensar sempre na felicidade coletiva agindo de forma moral.
Logo, os benefícios da doação de órgãos devem ser amplamente difundidos no âmbito nacional com o intuito de quebrar paradigmas. Para isso, por meio da Secretarias de Saúde e de Educação, as campanhas de conscientização devem ser veiculadas nas mídias sociais e nos espaços públicos (escolas, praças e centros comunitários), consoante o sociólogo Zymunt Bauman que reflete sobre a importância da mobilidade social dentro dos ambientes coletivos. Outrossim, deverá ser proporcionado apoio psicológico aos familiares que perderam os seus entes queridos através dos hospitais que confirmam o falecimento do possível doador.