Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 08/03/2020
Na série brasileira Malhação - Seu Lugar no Mundo, o jovem Felipe chegou a óbito ao sofrer um acidente de moto. A narrativa apresenta o processo de doação de órgãos e a dificuldade vivida pelo familiares, que de início, eram contra a ideia de adoção, mas logo depois aceitaram. Infelizmente, a perspectiva abordada na série é persistente no cotidiano, uma vez que o processo de doação de órgãos ainda é bastante lento no Brasil. É notório que não só a negativa das famílias, mas também falta de infraestrutura dificulta um melhor desempenho do sistema doação.
De início, é necessário destacar que a difícil aceitação das famílias contribui para a demora na fila de espera de doação. Isso acontece porque a doação de órgãos ainda é um tabu entre pessoas, o que faz com que a família pouco saiba sobre o desejo do possível doador sobre a doação e opte por não realizá-la. Prova dessa criticidade é que 47% das famílias se recusam a doar os órgãos dos parentes com morte cerebral, segundo a ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos). Consequentemente, tem-se uma menor participação de possíveis doadores e um aumento da fila de espera para o transplante, e o tempo de espera do órgão cada vez maior. Assim, fica claro que para estimular a doação de órgãos é necessário trabalhar a conscientização das famílias.
Além disso, a péssima estrutura do sistema de saúde colabora para uma maior dificuldade na realização da doação. Para o teórico alemão Ferdinando Lassal, “A Constituição não passa de uma folha de papel”, ou seja, o importância do direito está na sua concretização real, na prática. Nesse sentido, a instrução do teórico traz um alerta para a sociedade brasileira, uma vez que a garantia do direito à saúde prevista no artigo 6º da Constituição Federal está distante de se concretizar na prática, pois, a falta de infraestrutura dos pontos-socorros tornam a conservação dos órgãos inadequadas para uma possível doação. O resultado disso é o distanciamento de um processo de doação ideal, pois os órgãos que deveriam salvar diversas vidas, não são aproveitados. Dessa forma, a reestruturação desses pontos-socorros é de vital importância para a melhoria no processo de doação.
Portanto, é fundamental buscar melhorias para o modelo atual de doação de órgãos. Para isso, cabe ao Ministério da Saúde estimular a adesão prévia de possíveis doadores, mediante campanhas televisivas diárias com influenciadores que busquem naturalizar a discussão, para que, assim, a doação não seja tabu famílias, e tenha-se uma maior adesão de doadores. Já as Secretarias de Saúde, devem garantir uma melhor estrutura dos pronto-socorros, por meio de editais que visem a contratação de empresas especialistas na reforma desses postos, desta forma, mais órgãos serão aproveitados para a doação. Destarte, a história do jovem Felipe será uma realidade na sociedade brasileira.