Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 06/04/2020
Em sua célebre obra “Utopia”, Thomas Morus fala de uma cidade ideal, onde não há sofrimento ou qualquer problema social.Contudo, na contemporaneidade brasílica, essa realidade relatada pelo antigo pensador está longe de ser alcançada, tendo em vista as barreiras relacionadas com a doação de órgãos. Dito isso, faz-se necessário debater a questão governamental e cultural para solucionar o impasse.
Diante de tal cenário, é válido ressaltar, inicialmente, que a Constituição de 1988, em seu artigo 6º, garante vários direitos sociais, tais como a saúde. Entretanto, o que se nota, pois, é o descumprimento desse direito constitucional, haja vista a mínima expressividade do Estado, ainda em vigor, no que tange a doação de órgão para salvar vidas no Brasil. Isso pode ser comprovado pela venda ilegal de órgãos pelos brasileiros,sendo que eles são os que mais praticam essa atividade na América, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Peças aquelas do corpo humano que, caso o Governo combatesse a venda de órgãos, poderiam ser doadas para pessoas que aguardam um transplante. Tal contexto demonstra, por conseguinte, um quadro social caótico que precisa ser combatido.
Além disso, é mister salientar que o indivíduo é responsável por comprometer a doação de órgãos. Isso ocorre, porque, conforme o escritor José Saramago propõe em seu livro “Ensaios Sobre A Cegueira”, há uma “cegueira moral” presente na conduta das pessoas que impede uma valorização de interesse benéficos à coletividade. Dessa forma, existe na sociedade, até mesmo por crenças religiosas, que o transplante de órgãos é algo pecaminoso, fato esse que retarda a doação no Brasil. Não é de se estranhar, por tanto, que mais da metade das pessoas que esperam por um órgão morrem na fila de espera,segundo o Ministério da Saúde.
Por fim, percebe-se a existência de vários dilemas relacionados a doação de órgãos. Assim, o Governo Federal, para fazer valer o artigo 6º da Carta Magna, deve investir no combate à venda de órgãos no Brasil,aumentando a fiscalização, por exemplo, por intermédio de verbas recuperadas de operação contra a corrupção, como a “Postal Off”. Ademais, a mídia como seu alto poder persuasivo, deve informar à população, por meio de campanhas a serem divulgadas nos diversos espaços, como rádio e televisão, com o objetivo de retirar a população da “cegueira moral” na qual se encontra. Assim, o país estará mais próximo de ser um lugar ideal, como aquele dito pelo filósofo londrino Thomas Morus.