Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 30/04/2020

Os grandes avanços da medicina, ocorridos sobretudo no último século, projetaram diversas novas perspectivas para a humanidade. Se na Idade Média, por exemplo, o cenário médico era bastante limitado, hoje é possível realizar com sucesso um transplante de órgão. Tal conquista possibilitou o processo de doação de órgãos, esse que, apesar de hoje ser uma realidade tangível, ainda enfrenta uma série de desafios no Brasil. Tais impasses se dão principalmente pela falta de diálogo sobre a temática nas escolas e principalmente nas famílias. Logo, com cidadãos ignorantes, tem-se a redução do número de doadores e o aumento das filas de espera nos hospitais, favorecendo, assim, o tráfico de órgãos. Em uma primeira análise, vale destacar que um dos principais motivos que impedem a difusão da doação de órgãos no Brasil se concentra, em grande parte, em duas importantes instituições formadoras: a escola e a família. É perceptível que a ignorância acerca do ato de doar órgãos, especialmente quando se trata de entes já falecidos, é perpetuada na sociedade, uma vez que não há debates sobre a temática nessas duas instituições. Como consequência, difundem-se entre os indivíduos ideias errôneas sobre o processo, como o falso argumento de que a doação modifica a aparência física do finado. Além disso, também soma-se à problemática uma das características mais marcantes do homem moderno: o individualismo extremo. Nessa perspectiva, o filósofo Zygmunt Bauman apresenta o conceito do “homem líquido”, esse que, caracterizado pelo egoísmo, passa a renunciar a preocupação com o próximo, guiando-se apenas por objetivos pessoais. Nesse sentido, com uma sociedade cada vez mais líquida e ignorante, o desejo de se tornar um doador ou de doar os órgãos de familiares falecidos se torna raro no Brasil. Por conseguinte, o número de doadores passa a se manifestar de forma inversamente proporcional ao número de receptores, aumentando a fila de espera desses últimos, que já é elevada, nos hospitais brasileiros. É nesse contexto que o tráfico de órgãos passa a ganhar força e a se configurar como um dos comércios ilegais mais lucrativos do mundo. Isso prova o porquê do Brasil estar na lista dos países que mais comercializam órgãos (Ministério Público Federal e Organs Watch, 2010). Dessa forma, torna-se evidente a necessidade da tomada de atitudes corretivas. Assim, cabe ao Ministério da Saúde, em conjunto com o da Educação e o da Mulher, Família e Direitos Humanos, intervirem na sociedade por meio de projetos educativos aplicados diretamente nas escolas e estendidos à sociedade com projetos de extensão. Um deles pode ser a criação de semanas de palestra nas escolas e nos espaços públicos dos principais bairros da cidade com profissionais da saúde, desconstruindo falsos argumentos e sanando dúvidas acerca do processo de doação. Tal ação poderia vir acompanhado de mostras de documentários e relatos acerca da situação problemática das longas filas de espera de órgãos nos hospitais públicos brasileiros e dos dilemas do tráfico de órgãos, visando à conscientização dos indivíduos. Tais medidas podem contribuir para a passagem de uma “sociedade líquida” para uma mais consciente, democrática e altruísta.