Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 12/05/2020
“O importante não é viver, mas viver bem”. Segundo Platão, a qualidade de vida tem tamanha importância de modo que ultrapassa a da própria existência. Entretanto, no Brasil, essa não é uma realidade para os indivíduos necessitados de doações de órgãos, que são gravemente afetados pela falta desses elementos, nos hospitais. Com isso, ao invés de agir para tentar aproximar a realidade descrita por Platão da vivenciada por essas pessoas, a má influência midiática e o individualismo acabam por contribuir com a concretização dos obstáculos para a doação de órgão.
Precipuamente, é fulcral pontuar que o problema é agravado pela má influência da mídia. Conforme Pierre Bourdieu, um instrumento de democracia não deve ser convertido em mecanismo de opressão. Nessa perspectiva, pode-se observar que a mídia, em vez de promover debates que elevem o nível de informação da população, influência na consolidação do problema, tratando de forma silenciada os desafios para a doação de órgão. Diante dessa desinformação, gerada pelos meios midiáticos, muitos indivíduos acabam por sentir medo, insegurança ou desconforto de fazer tais doações, o que implica na falta de órgãos doados aos hospitais. Confirmando essas poucas doações, segundo a Agência Brasil, em 2004, foram realizados, apenas, 14.175 transplantes, no Brasil.
Ademias, é imperativo ressaltar o individualismo como promotor do problema. Na obra “modernidade líquida”, Zygmunt Bauman, defende que a pós-modernidade é fortemente influenciada pelo individualismo. Em virtude disso, há, como consequência a falta de empatia, pois, para se colocar no lugar do outro, é preciso deixar de olhar, apenas, para si. Nesse sentido, Essa liquidez, que influi sobre a questão da doação de órgãos, funciona como um forte empecilho para sua resolução. Ora, pode-se, portanto, dizer como antéticas, atitudes definidas por Aristóteles que não visassem o bem comum, as medidas tomadas por essas pessoas e pela mídia.
Por tudo isso, faz-se necessária uma intervenção pontual no problema. Destarte, especialistas no assunto, com o apoio de ONGs também especializadas devem desenvolver ações, com o objetivo de reverter a má influência midiática sobre as doações de órgãos, no contexto brasileiro. Tais ações devem ocorrer nas redes sociais, por meio da produção de vídeos que alertem sobre as reais condições da questão -comparando o tratamento que a mídia dá, com relatos de pessoas que de fato vivenciaram tal problema- . É possível, também, criar uma “hashtag” para identificar a campanha e ganhar mais visibilidade, a fim de conscientizar a população sobre as consequências do tratamento que determinados canais de comunicação dão ao assunto. Desse modo, talvez, será possível aproximar a realidade descrita por Platão, da vivenciada por esses indivíduos.