Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 03/05/2020

Em 2017, de acordo com a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), o Brasil registrou recorde de doadores de órgãos no primeiro semestre, registrando um aumento de 16% comparado ao mesmo período do último ano. Apesar disso, esse assunto ainda é um dilema entre os brasileiros e sua meta de 16,5 doadores por milhão de habitantes imposta pelo Ministério da Saúde ainda não foi superada. Isso se deve não somente pela desinformação sobre o assunto e falta de altruísmo da população mas também pela centralização de unidades preparadas para coleta, transporte e transplante dos órgãos. Portanto, é necessário encontrar medidas para aumentar o número de doadores, visto que a perpetuação dessa situação causa o sofrimento e a morte de milhares de brasileiros todos os anos.

Em um primeiro plano, é fato que a falta de informações e altruísmo da sociedade é a principal razão para a manutenção desse dilema, ser ou não doador. O sociólogo Zygmunt Bauman apresenta em sua obra o conceito de “modernidade líquida” - fragilidade de laços entre as pessoas, individualismo e imediatismo. Essa ideia é veemente observada no contemporâneo, dificultando o engajamento da população em promover e se tornar um doador.  Ademais, a baixa divulgação e incentivo à doação agravam esse dilema, pois muitos brasileiros não conhecem o processo e sua importância para a sobrevivência de concidadães e o veem como um “assunto tabu”, evitando a discussão sobre o assunto entre seus familiares.

Junto a isso, a falta de estrutura adequada em algumas regiões do país é um enorme entrave. Atualmente, as Unidades de Transplantes se localizam majoritariamente no sudeste e sul do país, nesses centros é observado uma equipe completa e bem equipada para a coleta, transporte e realização de transplantes. Essa homogeneidade dificulta a logística dos procedimentos, visto que o tempo de deslocamento de profissionais qualificados e dos órgãos até as demais regiões pode ser fatal.

Deve-se, pois, com o intuito de combater esse dilema, implementar mudanças. Primeiramente, cabe ao Ministério da Saúde, por meio das redes de comunicação - televisão e redes sociais, ferramentas mais utilizadas na atualidade - promover campanhas de divulgação de informações sobre a doação de órgãos e sua importância, com o objetivo de enfraquecer essa “modernidade líquida” e aumentar o número de doadores. Em adição, é dever das universidades de ensino superior promover a formação de profissionais especializados em transplantes, não apenas na área da saúde, mas também na área da logística, com o intuito de descentralizar, expandir e tornar mais eficientes os centros destinados aos transplantes. Dessa forma, será possível vencer esse dilema e salvar inúmeras vidas.