Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 03/05/2020

Para Franz Kafka, escritor austro-húngaro do século XX, a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana. Nessa perspectiva, tem-se a doação de órgãos, atitude nobre que salva inúmeras vidas. No Brasil, entretanto, há uma série de empecilhos que dificultam o processo de doação. Entre os principais dilemas, tem-se as burocráticas leis de transplante, em que a vontade do doador não é o bastante para a liberação dos transplantes, além da falta de informações por parte da população, o que colabora para a persistência da desinformação a respeito do assunto. Nesse sentido, convém analisar as principais causas e consequências, bem como possíveis soluções para o desafio.

Inicialmente, convém discutir a respeito das leis que regem os transplantes no Brasil. Diferentemente de países como a França, em que todos os cidadãos são considerados potenciais doadores, o Brasil caminha na direção oposta. Por exemplo, em nações europeias somente uma decisão documentada de não-doação por parte do paciente pode impedir o transplante. Já em nosso país, a palavra final é da família, ainda que o paciente tenha deixado sua vontade registrada, o que configura um grande impasse na permissão da retirada dos órgãos. O resultado disso pode ser observado por meio de dados do Ministério da Saúde, que mostram que 50% das famílias não permitem a doação. Dessa forma, inúmeras vidas ficam à mercê da sorte, esperando por vários anos até a sorte bater à porta.

Ademais, é importante destacar a falta de informações sobe o tema entre o grande público brasileiro. É perceptível que a pauta quase não é abordada nas redes de educação, nem se vê muitas campanhas de incentivo e, principalmente, esclarecimento acerca do tema. Nesse sentido, segundo o presidente da ABTO (Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos), Roberto Manfro, em entrevista ao canal R7 da TV Record, o principal empecilho para a doação de órgãos é a falta de acesso à informação por parte da população a respeito do tema. Dessa forma, a perpetuação do desconhecimento dificulta e compromete a vida e a saúde de milhares de pessoas nas filas de esperas por transplantes.

Depreende-se, portanto, a necessidade de uma maior atenção para o problema discutido. Assim sendo, cabe ao Ministério da Saúde alterar as leis de transplante de órgãos do país, por meio criação de uma PEC (proposta de emenda constitucional). Espera-se com isso tornar as doações automáticas, como nos países de primeiro mundo, a fim de que a vontade documentada do doador em potencial seja suficiente para a realização dos transplantes. Dessa forma, o país formará cidadãos esclarecidos e preparados para lidar com decisões tão importantes como a discutida. Dessa forma, o povo brasileiro viverá plenamente a solidariedade descrita por Franz Kafka.