Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 10/05/2020

De acordo com o filósofo grego Platão, em sua obra “A República’’, os indivíduos deveriam viver com sabedoria e com justiça, o que favoreceria a contemplação da necessidade de todos e destituiria os problemas sociais.Contudo, na contemporaneidade, a dificuldade em lidar com os dilemas da doação de órgãos tem contrariado o raciocínio do antigo pensador, já que a integridade de muitas pessoas tem sido violada por atos deliberados e imorais.Dito isso, a questão cultural e o individualismo são pontos que valem ser destacados no Brasil.

Diante desse cenário, é válido ressaltar, inicialmente, que as dificuldades da doação de órgãos refletem os costumes estabelecidos pela população em um certo período histórico.Sobre isso, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro ‘‘Raízes do Brasil’’, relatou que os indivíduos se relacionam de acordo com uma cultura local.Nesse sentido, a permanência de estigmas religiosos sobre a conduta de muitos cidadãos, os quais priorizam, muitas vezes, a purificação do corpo humano, como visto na religião Testemunhas de Jeová, evidencia um tabu que dificulta o desenvolvimento do espírito de fraternidade, já que a doação de órgãos fica comprometida.Tal contexto denota, por conseguinte, um quadro social que precisa ser relativizado , posto que , segundo o jornal ‘‘Folha de São Paulo’’, mais de 10% dos pacientes das filas de transplantes hospitalares morrem no país.

Além disso, o individualismo das relações interpessoais justifica, de certo modo, os dilemas quanto a escassez da doação de órgãos.Isso ocorre porque, conforme o escritor José Saramago, em sua obra ‘‘Ensaios Sobre a Cegueira’’, há uma ‘‘cegueira moral’’ na conduta de muitas pessoas, a qual impede a valorização de interesses benéficos à coletividade.Nesse viés, o egocentrismo e o materialismo da sociedade, os quais refletem a diretriz capitalista de que ‘’ter’’ é melhor do que ‘‘ser’’, confirmam os ditos pensador português, o que tem deixado os ideias coletivistas em segundo plano.Não é de se estranhar, portanto, que, apesar das campanhas governamentais , a desinformação e a ignorância sejam os principais empecilhos para o transplante de tecidos humanos no país.

Desse modo, os dilemas da doação de órgãos são um imbróglio que precisa ser minimizado.Assim, a Mídia, com seu caráter persuasivo, deve ampliar a conscientização da sociedade sobre os benefícios de tal situação , por meio de propagandas em ambientes diversos, como em televisões e em redes virtuais, tendo o fito de elucidar a população frente aos tabus religiosos e garantir, assim, o atendimento das necessidades dos cidadãos.Ademais, as Escolas, para fomentar o espírito de fraternidade do público infantil, deve investir no setor pedagógico, por intermédio de palestras com especialistas, como médicos, e de mostras científicas abertas para as cidades.Dessa forma, a justiça platônica se efetivará.