Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 07/06/2020

Segundo a Lei da Inércia, de Newton, a tendência de um corpo é permanecer parado quando nenhuma força é exercida sobre ele. Fora da Física, é possível perceber a mesma condição no que concerne o dilema de doação de órgãos. Nesse contexto, torna-se evidente como causas às questões socioculturais, bem como a falta de legislação relacionados a doação em questão.

Mormente, evidencia-se que a lenta mudança na mentalidade social caracteriza-se como um complexo dificultador diante das insatisfatórias taxas de doações de órgãos. Conforme Durkheim, o fato social é a maneira coletiva de pensar. Sob essa lógica, é possível perceber que a perspectiva nacional de doação de órgãos é fortemente influenciada pelo pensamento coletivo, uma vez que, se as pessoas crescem inseridas em um contexto inerte, a tendência é adotar esse comportamento também, o que tona a solução ainda mais complexa. Sob esse prisma, é importante que sociedade altere suas práticas fundamentadas estigmas sociais relacionados a crenças religiosas e/ou tradicionalismos, e veja que a doação é ato de solidariedade, que pode beneficiar muitos outros.

Outrossim, a falta de legislação ainda é um grande impasse para a resolução da problemática. Segundo Umberto Eco, “Para ser tolerante é preciso fixar os limites do intolerável”. Nesse sentido, percebe-se uma lacuna, explicitada pela falta de uma legislação adequada. Assim, sem base legal, ações de remediação são impossibilitadas, o que acaba por agravar a questão da doação e transplantes de órgãos no país. Tendo em vista, que atualmente a doação ou não de órgãos depende da decisão exclusiva dos familiares do falecido, que segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) apresentou 44% de recusa no ano de 2015 em casos de mortes encefálicas, desconsiderando assim, perante as leis, qualquer que seja a opinião daquele morreu.

Infere-se, portanto, que para a erradicação das dificuldades enfrentadas para a doação de órgãos e tecidos, são necessárias medidas estratégicas. É fundamental, a criação de projetos de lei que contemplem a questão da doação de órgãos com autonomia individual, pelas comissões da Câmara e Senados, em pareceria com consultas públicas. Tais consultas devem ser amplamente divulgadas nas redes sociais, para o público ter acesso e se posicionar. Além disso, em tais consultas, seria viável disponibilizar para download uma cartilha em PDF que com os detalhes da lei proposta, para que o problema não só ganha respaldo legal como também o faça de maneira consciente por parte da população, permitindo que documentos legais cumpram a decisão particular, sem intervenção familiar. E, então, os cidadães não adotem um princípio inerte diante do assunto.