Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 18/05/2020
“O pior mal é aquele visto como cotidiano” . A máxima da filósofa alemã Hannah Arendt, aponta, de acordo com seus estudos, a indiferença da sociedade frente a certos problemas. Nesse contexto, destaca-se o desafio da doação de órgãos, que, atualmente, possui baixo apoio da população enquanto a fila de espera por um transplante aumenta vertiginosamente. Sendo um problema que está diretamente relacionado à realidade di Brasil, seja pela negligência governamental, seja pela indiferença social.
A princípio, é incontestável que a inoperância governamental esteja entre as causas do problema. Poucas, são as políticas públicas que facilitam a doação de órgãos no Brasil, deixando sempre a escolha da doação para a família, que tem de tomar uma importante decisão em um momento delicado de Luto. Nesse prisma, de acordo com o filósofo John Locke, configura-se uma violação do “contrato social”, já que o Estado não cumpre sua função de proporcionar o direito à vida para população. De certo, isso se exemplifica na pesquisa publicada pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos - ABTO, que diz que 47% das famílias se recusam a doar os órgãos dos pacientes com morte encefálica. Outrossim, destaca-se a cultura da ignorância perpetuada por parte da sociedade, que, muitas vezes, devido ao senso comum, não entende os incontáveis benefícios que a doação de órgãos trás para as pessoas transplantadas. Isso é concordante com o pensamento de A. Schopenhauer de que os limites do campo da visão de uma pessoa determinam seu entendimento a respeito do mundo que a cerca. Tal fato pode ser observado na reportagem publicada em 2019 pelo jornal G1, que diz que hoje, no Brasil, existem apenas 16 doadores para cada 1 milhão de habitantes. A falta de debate sobre o tema gera um prejuízo social incalculável, pois , enquanto a adesão à doação não for suficiente, pacientes continuarão sofrendo na fila de espera por um órgão.
Diante desse cenário, é mister que o Estado promova o aumento da taxa de doadores de órgãos, por meio de uma lei que torna automática a doação em caso de morte encefálica, a não ser que o doador registre sua escolha de não doar, a fim de reduzir as filas de espera por um transplante, sendo isso necessário para atenuar a dor dos pacientes crônicos.Além disso, as instituições educacionais devem promover o debate sobre a doação de órgãos através de campanhas de conscientização veiculadas nos principais meios de comunicação, como TV e internet, para que, gradativamente , esse problema deixe de ser indiferente para a sociedade conforme o pensamento de Hannah Arendt.