Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 21/05/2020

Na obra pré-modernista, ’ Triste fim de Poliquarpo Quaresma’, dom escritor Lima Barreto, o major Quaresma, grande admirador do país, acreditava que, se superados alguns desafios, o Brasil alcançaria o patamar de nação desenvolvida. Hodiernamente, fora da literatura, percebe-se que tal horizonte não mimetiza a realidade atual, visto que o núcleo brasileiro ainda enfrenta sérios problemas, dentre eles o dilema dificultoso da doação de órgãos. Esse âmbito de iniquidade é fruto tanto da falta de informação quanto do silenciamento a nível pessoal.

Deve-se analisar, primeiramente, que a ausência de informação sobre a doação de órgãos é um fator determinante para problemática. Segundo o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, o conhecimento deve estar vinculado aos problemas do presente. Nesse sentido, sabe-se que a falta de conhecimento racional diante os casos de doações, principalmente sobre a morte cerebral, implica, seriamente, a degradação do panorama, acarretando, dessa maneira, a negativa das famílias aos meios de doações. Consoante ao levantamento da ABTO, Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, cerca de 47% das famílias se recusam a doar os órgãos dos parentes com morte cerebral. Diante disso, combater tal cenário torna-se uma necessidade e não um fato opcional.

É vital evidenciar, ainda, que os impasses relacionados a doação dos instrumentos vitais do corpo, encontra terreno fértil no silenciamento da população. Nessa óptica, Habermas faz uma contribuição, que a linguagem é um a verdadeira forma de ação. Sob esse prisma, para que o empecilho seja solucionado, é necessário discutir sobre. Analogamente, verifica-se certa lacuna no que se refere a essa questão, que ainda é muito silenciada, pois a sociedade se mantém passiva e calada diante tal ´problematização, além do que, conforme o levantamento do Portal G1, em 2019, 45 mil pessoas esperam por um transplante. Nessa lógica, trazer à parte esse tema e debatê-lo, amplamente, aumentaria a chance de atuação nele.

Portanto, pela perspectiva de Isaac Newton, uma força só é capaz de sair da inércia se outra lhe for aplicada, dando sentido ao  movimento. Em vista disso, depreende-se, ao Poder Público, como instância máxima da administração executiva, juntamente com a secretaria especial do Ministério da Saúde, por meio de ações: palestras, publicações em redes sociais, propagandas televisíveis e bate-papos nos centros urbanos, orientar toda parcela populacional sobre a importância da doação de órgãos e como tal solidariedade proporciona um raio de esperança na vida dos que os recebem, para que, de tal forma as crenças enraizadas na população nacional possa ser arrancadas dos núcleos sociais. Somente, assim, os ideais do major Quaresma poderão ser evidenciados na Nação brasileira.