Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 06/06/2020
Em 1954, Edward Murray realizou o primeiro transplante de órgão vital da história, e foi agraciado, posteriormente, com o Nobel de medicina. Entretanto, ainda hoje, a maioria da população brasileira se mostra indiferente à conquista de Murray, de modo que não há uma cultura de doação de órgãos no país. Assim, para modificar essa conjuntura, a desinformação da sociedade e a omissão do Estado precisam ser desconstruídos.
Primeiramente, é importante destacar que a decisão de doação de órgão é uma modalidade consentida, ou seja, a última palavra é da família. Isso é um grande problema, pois, na hora da morte, cria-se um momento de muita tristeza, e a família, motivada pela emoção e falta de conhecimento, acaba negando a doação. Essa falta de informação prévia, por exemplo, sobre morte encefálica - requisito para doação de órgãos vitais -, faz a família se sentir insegura e cultivar uma esperança de que seu ente ainda pode se recuperar. Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), mostrou que cerca de 50% dos familiares se recusam a doar órgãos de parente com morte cerebral.
Além disso, o governo não se mostra atuante nessa área da saúde. De acordo com a ABTO, 96% dos transplantes são realizados pelo Sistema Único de Saúde, no entanto, há uma concentração da atividade na região sudeste. Desse modo, quando é autorizada a doação de algum indivíduo que está afastado dos centros de transplante, seja no norte ou nordeste, não é possível realizar o procedimento, pois os órgãos possuem certo tempo de validade fora do corpo. Ademais, para acentuar o problema, não existe campanhas publicitárias massivas para estimular os cidadãos a se tornarem doadores. Consequentemente, todos esses fatores contribuem para congestionar a fila de 45 mil pessoas esperando por um órgão, conforme o site G1, em levantamento feito no final de 2019.
Portanto, é evidente que a doação de órgãos no Brasil é dificultada por fatores culturais e estruturais. Para mudar esse cenário, é imprescindível que o Ministério da Educação inclua, na base curricular, materiais acerca da doação de órgão, para instruir crianças e jovens que morte encefálica não é revertida e pode comprometer todos os outros órgãos em pouco tempo, desse modo, a doação é a melhor saída e pode contribuir para a vida de diversas pessoas. Outrossim, é necessário que o Ministério da Saúde desenvolva e implemente centros de doações regionais, que possibilitem maior proximidade entre doador e receptor, além de investir nas campanhas de divulgação de informações para conscientizar a população sobre a importância dessa nobre atitude. Só assim, com uma população instruída e um Estado operante, a lista de espera por órgãos será diminuída com o tempo.