Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 29/06/2020
O mito da caverna, de Platão, descreve a situação de pessoas que se recusavam a observar a verdade em virtude do medo de sair de sua zona de conforto. Fora da alusão, a realidade brasileira caracteriza-se com a mesma problemática no que diz respeito às dificuldades existentes para a doação de órgãos, visto que no primeiro trimestre de 2019 a taxa de doadores efetivos decresceu, conforme dados divulgados pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Nesse sentido, é preciso que estratégias sejam aplicadas para alterar essa situação, que possui como causas: a falta de conhecimento e a carência de debate.
A princípio, a falta de conhecimento apresenta-se como um complexo dificultador. Nesse contexto, o filósofo Schopenhauer defende que os limites do campo de visão de uma pessoa determinam seu entendimento a respeito do mundo. Isso justifica outra causa do problema: se as pessoas não têm acesso à informação séria acerca das regras, do protocolo e das formas de doação, sua visão será limitada, realidade preocupante que dificulta a aceitação familiar para a doação de órgãos de seus parentes recém-falecidos.
Outro ponto relevante nessa temática é a carência de debate. Desse modo, Habermas traz uma contribuição importante ao defender que a linguagem é uma verdadeira forma de ação. Diante disso, para que o número de doações e de transplantes de órgãos aumente, faz-se necessário debater sobre. No entanto, percebe-se uma lacuna no que se refere a essa questão. De acordo com o médico José Medina Pestana, a principal justificativa das famílias para não doar órgãos é o fato de nunca terem conversado sobre o desejo de doar. Assim, trazer à pauta esse tema e debatê-lo amplamente aumentaria a chance de atuação nele.
Logo, medidas estratégicas são necessárias para alterar esse cenário. Como solução, é preciso que as escolas, em parcerias com a prefeitura, promovam um espaço para rodas de conversa e debates sobre o processo de doação de órgãos, bem como incentivar a empatia e o altruísmo no ambiente escolar. Tais eventos podem ocorrer no período extraclasse, contando com a presença dos professores e profissionais da área de saúde. Ademais, esses acontecimentos não devem limitar-se aos alunos, mas ser aberto à comunidade, a fim de que mais pessoas compreendam questões relativas a esse panorama desafiador e se tornem cidadãos mais atuantes na busca de resoluções.