Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 10/07/2020
Na obra “Utopia”, do escritor Thomas More, é retratada uma sociedade perfeita, na qual o corpo social padroniza-se pela ausência de conflitos e problemas. No entanto, o que se observa na realidade contemporânea é o oposto do que o autor prega, uma vez que a doação de órgãos no Brasil apresenta barreiras, as quais dificultam a concretização dos planos de More. Esse cenário antagônico é fruto tanto de fatores de ordem governamental tanto do desconhecimento populacional.
É indubitável que a questão constitucional e a sua aplicação estejam entre as causas do problema. Segundo o filósofo grego Aristóteles, a política deve ser utilizada de modo que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado na sociedade. De maneira análoga é possível perceber que, no Brasil, o descaso estatal diante a doação de órgãos é fundamental na consolidação do problema. Visto que, apesar de a saúde ser um pilar garantido constitucionalmente, o Estado falha ao não priorizar a criação de políticas públicas mais eficazes para mitigar a quantidade insuficiente de transplantes fere a Constituição Federal que há 31 anos prometia uma nação com viés de bem-estar social. Dessarte, o Estado não criou mecanismos eficientes para conter tal conjuntura nacional, como na modernização do sistema de captação de órgãos, expondo aqueles que buscam por um transplante ao risco de não conseguir por falta de um doador ou centro médico adequado.
Outrossim, destaca-se a desinformação dos familiares acerca da doação como impulsionador do problema. De acordo com Durkheim, o fato social é uma maneira coletiva de agir e de pensar, dotada de exterioridade, generalidade e coercitividade. Seguindo essa linha de pensamento, observa-se que de acordo com a Associação Brasileira e Transplante de Órgãos (ABTO), dos dez mil casos de morte cerebral que ocorrem por ano, apenas metade possuem permissão para retirada de órgãos. Tal situação ocorre pela confusão feita entre falência encefálica e o coma, pois ao contrário da morte do cérebro, além disso, destaca-se a desinformação dos familiares acerca da doação como impulsionador do problema.
Ao parafrasear Hobbes, para que o Estado garanta o bem-estar, é imprescindível que o Governo tome providências para melhorar o quadro atual. Portanto, cabe aos meios de comunicações disseminarem informações sobre a necessidade das doações, por intermédio de campanhas publicitárias, com a finalidade de explicar sobre a diferença entre falência encefálica e o coma . Além do mais, urge que o Ministério da Saúde invista em profissionais e estruturas adequadas para realizarem os transplantes, por meio de cursos de capacitação e ambientes próprios que garantam a segurança dos indivíduos, com o intuito de oferecerem maiores contribuições para resguardarem uma vida. Somente assim, possa existir a quantidade suficiente de pessoas doadoras e que precisam dos órgãos.