Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 18/07/2020
O vídeo clipe da música “Someone You Loved”, do cantor escocês Lewis Capaldi, retrata a história de uma mulher que, antes de falecer, comunica com seu marido sobre querer doar seus órgãos. Posteriormente, o homem fica emocionado ao conhecer uma das pessoas beneficiadas pelos transplantes da sua esposa. Distante da ficção, na realidade brasileira, a doação de tecidos humanos, em prol de salvar vidas, enfrenta obstáculos devido ao silenciamento midiático e ao pensamento individualista.
Em primeiro plano, há o embargo da omissão da mídia em relação à exposição da problemática. Segundo o conceito de “Agir comunicativo”, do sociólogo Jürgen Habermas, é por meio da troca de informações que ocorre o progresso dentro de uma sociedade democrática. Nessa perspectiva, os meios de comunicação não têm cumprido seus papel de ferramenta social, ao não promoverem debates sobre a importância da doação de órgãos, os quais possam elucidar a população acerca das regras, dos protocolos e das maneiras de realizar tais procedimentos. Assim, em virtude do desconhecimento de tais métodos e conceitos, pessoas aptas a doar não o fazem, por terem uma visão de deturpada em relação aos transplantes.
Outrossim, alguns fatores comportamentais do ritmo de vida contemporâneo colaboram com o problema. De acordo com a obra “Modernidade líquida”, do filósofo Zygmunt Bauman, a falta de empatia caracteriza a conduta do ser humano pós-moderno, cada vez mais pautada no individualismo. Nesse sentido, o excesso de compromissos cotidianos, como trabalho e estudos, são vistos como prioridade dentro da sociedade, consequentemente, dificultam a realização de gestos altruístas, voltados para o benefício do próximo, como a doação de órgãos. Por conseguinte, esses empecilhos, calçados na ótica do bem individual, contribuem com o cenário de sofrimento dos brasileiros que necessitam de atos de generosidade para ter a garantia da própria vida.
Portanto, cabe ao Governo Federal, por meio do Ministério da Saúde, investir em campanhas de divulgação de informações sobre os transplantes de órgãos no Brasil. Isso pode ser feito por meio da publicação de vídeos na redes sociais oficiais do governo, apresentados por profissionais da área da saúde, os quais expliquem didaticamente, por exemplo, com animações gráficas, a importância, os procedimentos e as formas de fazer as doações. Dessa forma, será possível incentivar a empatia e o altruísmo dos brasileiros, além de desconstruir mitos e aversões entorno do tema. Por fim, histórias como a do vídeo clipe de Capaldi se tornarão realidade.