Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 19/07/2020
Em um episódio do seriado americano “O bom doutor”, é mostrado como o transplante de órgãos é um procedimento complexo que pode salvar vidas. Não distante da ficção, analisando o Brasil atual, é evidente o crescimento da problemática na política de doação de órgãos proveniente da falta de investimentos públicos destinados à melhoria da infraestrutura de hospitais brasileiros além da escassa disseminação de informações acerca do assunto na sociedade. Nesse contexto, é indispensável o debate acerca dos dilemas da doação, bem como conscientizar a população da importância desse ato.
A princípio, é nítida a péssima infraestrutura do serviço público de saúde, uma vez que cerca de 70% dos órgãos doados não são utilizados a tempo, de acordo com a ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos). Esse cenário é razão da alta complexabilidade de um transplante e da necessidade de equipamentos de qualidade para a realização do procedimento. Desse modo, é quase inexistente a participação do Poder Público no esforço para a mudança dessa realidade, posto que a situação da saúde nacional e a eficiência de transplantes só decresce, o que causa mais desconfiança nas famílias: responsáveis na autorização das doações. Por conseguinte, o país atual encontra-se diferente daquele outrora idealizado na Carta Magna de 1988.
Ademais, cabe destacar que culturalmente, o Brasil não é um país de doadores por excelência, visto que cerca de 43% das famílias consultadas (dados de 2018 do SUS) recusam-se em autorizar a doação, percebe-se que parte dessa porcentagem estão relacionada também a familiares que não são devidamente informadas sobre o procedimento ou que não sabiam que o ente desejava ser doador. De acordo com filósofo Zygmunt Bauman, vive-se um período de banalização do outrem, já que com advento da globalização, as pessoas passaram a se retraírem socialmente, procurando conhecer somente aquilo que lhes é de interesse próprio. Assim, os indivíduos desconhecem que podem ser doadores de órgãos, por não saber que mesmo depois de falecidas precocemente podem salvar vidas.
Infere-se, portanto, que medidas devem ser tomadas para combater os dilemas da doação de órgãos. Para a conscientização da população brasileira a respeito do problema, urge que o Ministério da Saúde crie, através de verbas governamentais, campanhas publicitárias onde detalhem sobre o processo de doação de órgãos e sua importância para aqueles que necessitam, para que mais pessoas se tornem doadoras. Ademais, cabe o legislativo direcionar mais recursos monetários para esse mesmo Ministério, para que estes recursos sejam distribuídos no maior número de unidades de saúde possível, afim de que tenham capacidade física e clínica de lidar com processo de transplante de órgão. Assim, espera-se que cirurgias como a mostrada em “O bom doutor” sejam mais frequentes no Brasil.