Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 13/08/2020
O Brasil é um dos países referência no transplante de órgãos e na rígida legislação que coordena esses procedimentos. Contudo, não obstante a relativa eficiência no processo de doação, o país ainda dispõe de uma longa fila de espera por transplantes, uma vez que, segundo o Ministério da Saúde, há uma demanda por, aproximadamente, quarenta mil órgãos. Nesse viés, a desinformação da população e a manutenção de uma infraestrutura pouco satisfatória são problemas que fundamentam a persistência dos atuais índices no tocante à doação de órgãos.
Em primeiro plano, é válido ressaltar que a permanência de tabus em torno dessa temática compromete a possibilidade de aumento das doações. Nesse sentido, a escassez de informações a respeito da doação de órgãos advém de uma cultura que censura a morte e que a põe apenas em uma posição de dor e sofrimento, o que, por muitas vezes, se torna justificativa para que as famílias não realizem a doação dos órgãos do seu ente. Tal análise pode ser observada sob a perspectiva do sociólogo Émile Durkheim, o qual afirma que o indivíduo somente poderá agir na medida em que conhecer o contexto no qual está inserido. Logo, ao continuarem apáticas sobre a sistemática dos transplantes, a maioria das famílias ainda resistirá à permissão desse ato.
Somado a isso, ainda se presencia uma má infraestrutura para dar vazão á demanda por doação de órgãos no Brasil. Nesse panorama, a pouca quantidade de profissionais e de unidades hospitalares especializados da área, bem como a insuficiência de jatinhos para o transporte inter-estadual dos órgãos são dilemas que reduzem, qualitativamente, a eficiência dos transplantes. Contudo, é sabido que o Princípio da Integralidade do Sistema Único de Saúde, de responsabilidade do Estado brasileiro, garante a proteção e a promoção da saúde na rede pública , o que não é plenamente assegurado para os procedimentos de doação de órgãos.
Sob tal ótica, é imperioso enfatizar a urgência por mudanças na conjuntura vigente. Para tanto, é necessário que o Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério da Educação e as escolas, promova sessões periódicas de palestras para pais e alunos sobre a doação de órgãos, em que, por meio de profissionais que atuam na área, psicólogos e assistentes sociais, será abordado a importância desse ato e a desmistificação dos procedimentos de retirada e transplante de órgãos. O objetivo dessa ação é mitigar a desinformação de parte significativa da sociedade. Ademais, é primordial que a União, junto com os governos estaduais, atuem na construção de centros especializados para os transplantes e na capacitação de mais profissionais, mediante a destinação de recursos para tais. Assim, a fila de espera será atenuada e mais pessoas terão qualidade de vida.