Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 20/08/2020
Stuart Mill, filósofo inglês do século XIX,propôs na sua ética utilitarista o princípio da maior felicidade,na qual a ação tida como moralmente correta aquela que proporciona a felicidade para o maior número de indivíduos.Entretanto,na conjuntura contemporânea,ao se observar o cenário da saúde nacional,nota-se que a máxima do pensador não é exercida na prática,em virtude dos obstáculos da doação de órgãos,os quais propiciam a perda de milhares de pessoas que necessitam de um transplante para sobreviverem.Nesse contexto,urge analisar como a negligência estatal e o despreparo da sociedade civil impulsionam tal problemática.
Convém ressaltar,a princípio,que os impasses para a efetivação da doação de órgãos estão intrinsecamente relacionados à inobservância governamental.Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos,o Brasil tem mais de 30 mil pacientes em fila de espera para transplante.Nesse viés,os mínimos investimentos estatal em infraestrutura na saúde pública corrobora para as perdas constantes de potenciais doadores,visto que uma parcela significativa de hospitais da rede pública não possuem locais apropriados e bem equipados para a realização dos transplantes.Desse modo,a execução de tais procedimentos ocorrem de maneira desigual pelo território nacional,à medida que as regiões do Sudeste e Sul concentram as maiores efetuações de doações de órgãos.
Outrossim,vale salientar que a falta de conhecimento por parte da sociedade civil de como procede o processo para a realização dos transplantes corrobora para uma resistência na efetivação da doação.Nessa perspectiva,a ausência de informações acerca da doação de órgãos no âmbito social possibilita a difusão de concepções errôneas sobre a comercialização de órgãos,haja vista que a incompreensão por parte dos familiares em relação ao diagnóstico de morte encefálica necessário para a realização do transplante dificulta a efetivação da doação.Tal panorama,é análoga a teoria dos “Ídolos”,do filósofo Francis Bacon,a qual as falsas percepções humanas atrapalham a compreensão da realidade.Por conseguinte,esse cenário propicia o aumento gradual das filas de espera.
Infere-se,portanto,que é imprescindível medidas para incentivar a doação de órgãos no âmbito social e,consequentemente,minimizar as entraves.Logo,cabe ao Ministério da Educação - esfera do Estado responsável pelas diretrizes educacionais - promover nas escolas palestras e atividades lúdicas,para pais e alunos,as quais elucidem sobre os procedimentos necessários para a realização dos transplantes.Isso deve ser feito por meio de profissionais capacitados na área,como médicos e enfermeiros,a fim de estimular os indivíduos a serem possíveis doadores e,consequentemente,reduzir as filas de espera.