Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 17/08/2020
De acordo com o escritor Franz Kafka,a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana.No entanto,hodiernamente,o baixo índice de doação de órgãos no Brasil,atrelado à falta de infraestrutura hospitalar e à desautorização familiar, confronta o ideal proposto e carece de um olhar mais crítico.
Nessa perspectiva, infere-se que,segundo o contratualista John Locke, a ausência de estrutura adequada para realização do procedimento,devido a precariedade do Sistema Único de Saúde (SUS), configura quebra do contrato social, uma vez que o homem ao abdicar de seu estado de natureza e se submeter ao Estado, espera que este seja capaz de resolver entraves e promover igualdade.Sob tal ótica,é notório que o governo não cumpre seu papel regulador,visto que há pouco investimento estatal no que tange à manutenção de equipamentos vitais para realização do transplante de órgãos, o que inviabiliza o processo e indubitavelmente desmotiva as doações ,em consonância com Locke.
Ademais,é válido salientar que, na série americana Grey’s Anatomy, a falta de autorização da família para doação de órgãos em tempo hábil,é retratada ao mostrar duas jovens com morte encefálica,que tiveram seus órgãos descartados, devido a negação de seus pais para execução do procedimento. Nesse sentido, é evidente que a falta de sensibilidade e incompreensão dos indivíduos,mediante o poder da doação de órgãos para o salvamento de vidas, corroboram para a perpetuação do quadro e tornam as filas de espera inevitáveis.
Destarte,são necessárias medidas para mitigar os desafios da doação de órgãos no país.Em suma, cabe ao Governo Federal— entidade responsável por garantir o bem-estar dos civis— disponibilizar verbas,por intermédio de associações com bancos privados,com o intuito de realizar melhorias nos hospitais públicos e garantir a execução segura de procedimentos cirúrgicos,como o transplante de órgãos. Assim,haverá um maior incentivo a doação e o Brasil aproximar-se-á do ideário de Kafka.