Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 18/08/2020
A medicina, assim como proferido pelo juramento de Hipócrates, busca meios de cura para as mazelas do homem, usando de seu entendimento para o bem do doente sem lhe causar dano. A evolução dessa ciência proporcionou avanços nos métodos de tratamento e prevenção e, dentre eles, talvez, um dos mais significativos tenha sido o transplante de órgãos, representando a esperança de diversos pacientes. Entretanto, o número de doadores ainda é insuficiente para atender à crescente demanda e essa situação se agrava em virtude de fatores como a resistência das famílias, a infraestrutura inadequada e a lentidão logística.
Em primeiro plano, é preciso entender que inúmeras são as causas que impedem a doação de órgãos. Nesse sentido, questões religiosas, culturais e sociais permeiam entre as famílias, as quais acabam negando a prática de doação ou não permitindo que seus filhos a realizem, pois defendem a ideia de que o corpo humano deve continuar inviolável, mesmo após a morte. Ademais, o Sistema Único de Saúde (SUS) é responsável por coletar os dados e fazer a conexão entre doador e receptor, mas falta logística para transporte e armazenamento adequado do órgão, o qual acaba exposto a um longo período de tempo fora do corpo humano e perde sua funcionalidade.
Consequentemente, à medida em que as atividades relacionadas ao encaminhamento do órgão se tornam mais lentas, maior o número de pacientes debilitados em filas de espera. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil perde, por dia, três órgãos destinados a doação. Esse descaso pode resultar no agravamento do estado do indivíduo e, inclusive, leva-lo a óbito. Por fim, a ineficiência logística aliada ao desespero da família é capaz de contribuir para a atividade ilegal do mercado negro de órgãos ligado ao tráfico de pessoas.
Dessa forma, é necessário que o Brasil supere tradições familiares e os problemas relacionados à destinação dos órgãos. Para tanto, o governo, junto ao Ministério da Saúde, deve investir em campanhas publicitárias, por meio de canais televisivos e mídias sociais, explicitando como os transplantes podem aliviar o SUS das altas demandas e elaborando ficções engajadas, que esclareçam tabus e mitos acerca da doação, objetivando o aumento no número de doadores. Vale, também, incluir a capacitação dos profissionais, a agilidade na locomoção e a conservação das peças, por intermédio de treinamentos semanais com situações baseadas na vida real e processos seletivos rigorosos, de modo que os receptores sejam atendidos com eficácia e o órgão não perca sua funcionalidade. Por fim, cabe a conscientização da população sobre a importância dos transplantes, vencendo concepções antigas. Assim, será possível assegurar o juramento feito por Hipócrates, que visa o bem do doente.