Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 21/08/2020

O século XVI foi marcado pelas Grandes Navegações, nas quais as potências marinhas viajavam em busca de novas terras, porém, muitos marujos tinham medo do mar por causa das lendas sobre monstros aquáticos que os matariam. A desinformação é o gatilho para receios como esses, hodiernamente, mesmo com acesso à internet, as pessoas não realizam ações que seriam benéficas para a sociedade por acreditarem em superstições populares. Tal caso é o da doação de órgãos, no qual já enfrenta o sistema de saúde precário e as crenças diminuem ainda mais o sucesso dessa ação.

Dessa forma, a cultura popular aliada ao desconhecimento gera um descrédito com a prática do transplante de órgãos de uma pessoa para outra. Isso ocorre porque alguns acreditam que ao tirar uma parte do corpo de um indivíduo, esse teria sido violado e desrespeitado depois da morte, por isso a negativa de alguns grupos com essa ação. Ademais, a falta de informações sobre o processo e sua beneficie faz com que esse assunto não seja vinculado ao cotidiano, concomitante ao medo de falar sobre a morte impede que os indivíduos se sintam confortáveis de expressar à família o seu desejo. Para ilustrar tal fato, em 1997 foi sancionada uma lei a qual estabelecia que era necessário ter na carteira de identidade a escolha do indivíduo, porém como a sociedade não naturalizou a temática, a medida não se efetivou e foi revogada.

Além disso, é notório que o descaso com o Sistema Único de Saúde (SUS) alicerça a problemática da doação de órgãos no país. Tal conjuntura é baseada na falta de investimentos que diminui a capacidade de atendimento dos hospitais, os equipamentos se tornam obsoletos e sem possibilidade de troca além de problemas no transporte dos órgãos. Com essa situação os pacientes que buscaram um apoio médico e custos baixos durante todo o tratamento, encontram a fila de espera e descuidado do Estado com o bem-estar dos cidadãos, que em alguns casos levou a morte. Exemplo disso foram as 153 recusas da Força Área Brasileira, durante os anos de 2013 a 2015, para deslocar órgãos que teriam salvado a vida de várias pessoas.

Diante o exposto, urge a necessidade de normalizar o assunto da doação de órgãos para aumentar os números de doadores e melhorar a estrutura médica. Em primeiro plano, o preconceito com o tema necessita ser enfrentado com campanhas publicitárias, realizada pela Secretaria de Comunicação Federal, que mostrem a importância desse ato na vida de quem recebe o órgão, além de parcerias com emissoras para tratarem do tema em novelas – para aprimorar a naturalidade do assunto. Na esfera de investimentos, o Ministério da Saúde juntamente com o Ministério da Fazenda, deve criar campanhas que incentivem doações civis para instituições de saúde pública que serão abatidas no imposto de renda do ano seguinte. Dessa maneira, o medo é superado com informação e capitais.