Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 21/08/2020

Na série televisiva “Sob Pressão”, os médicos Evandro e Carolina tentam convencer uma mãe de doar os órgãos de seu filho que, após um acidente, sofre morte cerebral. A mãe, no entanto, nega o diagnóstico, na esperança de que o quadro do rapaz se reverta. Consequentemente, com a demora na solução do problema, o rapaz não sobrevive e os órgãos não são doados. Fora das telas, dramas como esse se repetem na realidade brasileira, evidenciando que a doação de órgãos e tecidos enfrenta muitos desafios na sua realização. Entre eles, deve-se destacar a desinformação da sociedade e a falta de infraestrutura como um dos principais impedimentos.

Primeiramente, vale ressaltar que a falta de informação a respeito do procedimento pode ser determinante. Segundo o Ministério da Saúde, é considerado um doador em potencial o indivíduo notificado com morte encefálica, isto é, quando perde todas as suas atividades cerebrais de forma irrecuperável. Entretanto, muitas famílias não entendem esse conceito e, geralmente por razões éticas e/ou religiosas, ficam esperando pela recuperação dos familiares. Com essa espera, portanto, as doações tornam-se inviáveis, uma vez que os órgãos devem ser removidos em até trinta minutos após constatada a morte cerebral.

Além disso, a infraestrutura precária de algumas regiões impede a realização dos transplantes. Segundo Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), apenas 30% dos órgãos doados no Brasil foram efetivamente transplantados nos últimos 6 meses. Esse baixo número se deve, em grande parte, à falta de recursos nas regiões Norte e Nordeste, onde a logística é muito difícil. Dessa forma, alguns órgãos nem sequer chegam ao destino final.

Fica evidente, então, diante dos argumentos apresentados, a necessidade de se resolver a desinformação e a falta de infraestrutura no Brasil, para que as doações de órgãos aumentem e mais pessoas sejam transplantadas. Logo, cabe ao Governo Federal, através do Ministério da Educação, abordar a importância do tema nas escolas, incluindo-o na disciplina de biologia do Ensino Médio, com a finalidade de garantir conhecimento prévio nesse sentido. O Executivo, deve, ainda, através de decreto, disponibilizar aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) para ficar à disposição do transporte para transplante, a fim de diminuir o número de órgãos que são perdidos devido à falta de logística. Somente assim, será possível garantir que mais vidas sejam salvas e desfechos como o narrado em “Sob Pressão” fiquem apenas na ficção.