Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 22/08/2020
Em um dos episódios da famosa série televisiva “Grey’s Anatomy”, é retratado o longo processo enfrentado por um paciente ao precisar receber um transplante de rim, porém, devido à grande quantidade de pacientes na lista de espera pelo órgão, ele acaba vindo a óbito. Para além da ficção, na atual sociedade brasileira, muitas pessoas passam as mesmas dificuldades vivenciadas pelo paciente, visto que, ainda que venha aumentando durante os últimos anos, o número de doadores de órgãos no Brasil não atingiu proporções significativas em comparação a quantidade de pessoas que necessitam de um transplante, fruto da falta de esclarecimento sobre o processo e da ausência de debates nas escolas. Assim, faz-se necessária uma intervenção neste cenário.
Em primeiro lugar, é importante salientar que a carência de diálogos acerca do transplante de órgãos nas instituições de ensino é um dos principais empecilhos para o crescimento dos índices de doação de órgãos. Deste modo, a falta de incentivo e conhecimento sobre esse ato solidário desde o ensino escolar contribui para o surgimento do sentimento individualista nos cidadãos brasileiros, haja vista que, segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, o individualismo é uma das principais características da pós-modernidade. Assim, a falta de empatia promovida pela falta de incentivos a solidariedade desde cedo nas escolas impede o surgimento de mais doadores de órgãos no Brasil.
Em segundo lugar, a falta de esclarecimento sobre o processo de transplante de órgãos surge como outro obstáculo no caminho da doação. A decisão de doar ou não doar os órgãos de um paciente apto a essa oferta pertence à família dele. Entretanto, devido ao desconhecimento do quadro do paciente, que não possui atividade cerebral, as famílias, muitas vezes, optam por não doar, por acharem que o paciente pode voltar a vida ou que não morreu, ainda que, quando vivo, o familiar tenha deixado claro que queria ser doador. De acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, a taxa de não autorização das famílias é 43%.