Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 19/12/2020

Em um dos episódios da série americana “Grey’s Anatomy”, a personagem Izzie corta o fio LVAD que mantém o marido vivo para que ele piore e suba na fila do transplante. O ato, apesar de antiético, reflete a falta de doadores e as longas filas pela sobrevivência. Não longe da ficção, percebem-se aspectos semelhantes no que tange à questão do dilema da doação de órgãos, dado que a carência de doares ainda persiste fortemente no cenário atual. Nesse contexto, torna-se evidente como causas a falta de conhecimento da população, bem como o silenciamento midiático.

A princípio, a lacuna informativa sobre a importância de doar os órgãos, caracteriza-se como um complexo dificultador. Nessa perspectiva, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), no Brasil, há cerca de 40 mil pessoas na fila de espera para transplante. Nesse sentindo, o sociólogo Durkheim pregava que o indivíduo só poderá agir na medida em que aprender a conhecer o contexto em que está inserido, a saber quais são suas origens e as condições de que depende. Dessa forma, nota-se que uma vez que a sociedade não possui conhecimento desse carente panorama, as pessoas não conseguem se conscientizar sobre a importância de ceder essas partes do organismo

Além disso, uma outra dificuldade enfrentada no processo de transplantar, é a presente má influência midiática. Nesse viés, o sociólogo Pierre Bourdieu discursou que o que foi criado para ser instrumento de democracia não deve ser convertido em mecanismo de opressão. Entretanto, dados da ABTO mostram que a taxa de recusa de doação de órgãos por parentes é de 43%, enquanto a média mundial fica em torno de 25%. Logo, pode-se observar que a mídia, em vez de promover debates que elevem o nível de informação da população, influenciando as pessoas a doarem, não expõe esse quadro, contribuindo na consolidação do problema.

Dessarte, é nítido que o dilema da doação de órgãos apresenta um cenário carente e necessitado de soluções pontuais. Portanto, é necessário que o Ministério da Saúde (MS), em parceira com mídias de grande acesso, crie campanhas informativas, como eventos públicos e comerciais, com o auxílio de profissionais da área, que informe à população sobre a importância de doar, influenciando as pessoas a conversarem com suas famílias, autorizando transplantes em caso de morte encefálica. Ademais, seria viável se o MS, assim como os países desenvolvidos, notificasse as famílias sobre os destinos dos órgãos doados e quantas vidas o doador ajudou a salvar, (atitude que aumentou o número de doações no Reino Unido). Então, talvez, a contagem de doadores cresça, ajudando a salvar mais vidas necessitadas.