Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 25/10/2020

Na obra “As duas Fridas”, da artista mexicana Frida Kahlo, depreende-se a importância da cooperação e da doação de órgãos, a partir da análise da conexão existente entre as personagens de corações dilacerado e saudável. Não obstante o cenário apresentado na pintura, o Brasil enfrenta entraves no tangente à doação de órgãos. Assim, é válido destacar que a recusa familiar, causada por falhas na abordagem médica consoante ao baixo investimento em campanhas, configura-se como um fator agravante da problemática.

Em primeira análise, é lícito postular que uma abordagem médica pouco humanizada e empática aos familiares de vítimas de morte encefálica acaba por agravar o quadro de negação da doação de órgãos. Nesse sentido, conforme disserta a filósofa brasileira Viviane Mosé, uma educação tecnicista dificulta a formação crítica e observante às questões humanitárias. Sob essa ótica, uma educação médica deficitária, nesse aspecto, contribui para as altas taxas de recusa familiar, que, segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, divulgados em 2019, ultrapassam em 40% a média global.

Outro ponto passível de destaque é o baixo investimento em campanhas acerca da temática e a consequente carência de informação da população a este respeito. Dado que, o receio dos familiares quanto à deformação do corpo e a falta de clareza em relação ao procedimento são fatores que obstam o crescimento do índice de doação de órgãos. E, de acordo com o filósofo Michel Foucault, o discurso age de forma determinante nas ações humanas, de forma a torná-las aceitáveis pela sociedade. Sob esse ângulo, o esclarecimento e a visibilidade desse tema contribuiriam para uma resposta afirmativa quanto à intenção da família em doar os órgãos do ente falecido.

Em suma, faz-se adequada uma intervenção por parte do Ministério da Educação, que deve orientar as instituições de formação de profissionais da saúde a ofertarem aulas voltadas a aspectos humanitários, por meio de simulações de maneiras de abordagem médica, com o fito de incitar a empatia e o respeito a famílias enlutadas e, assim, torná-las passíveis de acatar o pedido de doação de órgãos. Também é imperioso que o Ministério da Saúde invista em mais campanhas, a serem veiculadas nas mídias virtuais e redes sociais governamentais, acerca dessa temática, a fim de sensibilizar a população quanto a esta temática. Desse modo, amenizar-se-ão os desafios da doação de órgãos no Brasil.