Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 20/10/2020
Na longa metragem “Um ato de coragem” o filho de um operário de fábrica precisa urgentemente de um transplante de coração, porém seus pais não possuem dinheiro suficiente, e nem plano de saúde. Saindo da ficção, sabe-se que no Brasil tem-se o Sistema Único de Saúde (SUS) que disponibiliza transplantes gratuitamente, contudo a falta de doadores é o problema que persiste. Nesse contexto, percebe-se a configuração de um grave problema de contornos específicos, em virtude do individualismo e da banalização do problema pela sociedade.
Em primeiro plano, os dilemas sobre a doação de órgãos encontram agravamento no egocentrismo. Na obra “Modernidade Líquida”, Zygmunt Bauman defende que a pós-modernidade é fortemente influenciada pelo individualismo. Em virtude disso, há como consequência, a falta de empatia, em que a tal “liquidez” dita por ele influi, por consequência, no panorama da falta de doadores de órgãos não só no Brasil, mas em todo o mundo, como um forte empecilho para a resolução do cenário.
Em paralelo, é preciso salientar que o silenciamento é uma causa latente do problema. Segundo Foucault, na sociedade contemporânea, muitos temas são silenciados para que estruturas de poder sejam mantidas. Diante disso, verifica-se uma lacuna em torno dos debates e exposições sobre a questão de transplantes, o que contribui com o aumento da falta de conhecimento da população sobre o problema, tornando sua resolução mais dificultada.
Portanto, uma intervenção faz-se necessária. Para isso, o Ministério da Saúde deve criar e divulgar uma campanha nas redes sociais de maior acesso- como o Instagram, o Twitter e o Facebook- por meio do relatos de transplantados que conseguiram ter suas vidas salvas com o ato dos doadores, além da participação de médicos especialistas para que haja uma compreensão do assunto, a fim de estimular a empatia e à mostra de forma objetiva os benefícios de tal atitude. Assim, possivelmente, problemas como o visto em ”Um ato de coragem” serão cada vez menos recorrentes na realidade dos que possam vir a precisar desse tipo de procedimento.