Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 03/09/2020

Em “Sob Pressão” - série médica brasileira - é retratado o dilema sobre a doação de órgãos, quando Bete, mãe de um rapaz que teve morte cerebral, não aceita o diagnóstico médico e se recusa a doar os órgãos de seu filho, enquanto a equipe hospitalar tenta convencê-la a desligar os aparelhos. Embora lamentável, tal cenário faz-se presente na contemporaneidade, haja vista os dilemas da doação de órgãos. Diante disso, é fundamental analisar o atual panorama que persiste seja pela estrutura inadequada, seja pela ausência de informação e consequente recusa das famílias para desconstruir essa realidade tupiniquim.

Em primeira análise, é imperativo salientar a precária infraestrutura do serviço público de saúde, o que contribui para a ineficiência da doação de órgãos. Isso é afirmado, pois, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), apenas 30% dos órgãos doados são transplantados a tempo. Nesse sentido, nota-se a escassez de equipamentos necessários e o despreparo hospitalar na realização desses procedimentos, em consequência da má gestão e distribuição de verbas nesse setor. Como efeito, as grandes filas de espera por um órgão e a lentidão no processo de doação são evidentes, uma vez que um doador pode salvar até oito pessoas, segundo Valter Garcia, editor de Registros Brasileiro de Transplantes e membro da ABTO.

Outrossim, a desinformação e o desconsentimento familiar são empecilhos significativos no que diz respeito à doação de órgãos, já que a família precisa autorizar a interrupção dos aparelhos de suporte à vida. Sob esse viés, Franz Kafka - escritor alemão - afirma que o respeito pela dignidade humana pe melhor expressado pela solidariedade. Entretanto, dados do Sistema Único de Saúde mostram que cerca de 47% das famílias consultadas recusam-se em autorizar a doação. Nesse âmbito, destaca-se que os parentes não possuem informações suficientes e relevantes sobre o procedimento, além de não entenderem, na maioria das vezes, a morte encefálica - completa e irreversível parada de todas as funções cerebrais - e de não receberem um preparo emocional e psicológico para lidar com o processo.

Depreende-se, portanto, que, para efetivar o processo de doação de órgãos e salvar mais vidas, o Estado - principal responsável por garantir a saúde e a segurança pública - deverá, em parceria com o Ministério da Saúde, desenvolver políticas públicas que visem aumentar e adaptar a infraestrutura de hospitais para a doação de órgãos, além de formar mais profissionais capacitados, a fim de assegurar o sucesso nos transplantes. Ademais, deve, junto ao Ministério da Educação e às mídias comunicativas, criar campanhas e palestras públicas de conscientização à população, por intermédio de propagandas e debates, com o intuito de mitigar as dúvidas e escapar da realidade apresentada em “Sob Pressão”.