Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 09/09/2020

Charles Darwin, através da teoria da Seleção Natural, afirma que os selvagens fracos de corpo ou mente são logo eliminados, enquanto os sobreviventes geralmente exibem um vigoroso estado de saúde; os civilizados, por outro lado, buscam deter o processo de eliminação através de mecanismos medicinais. O cenário brasileiro atual, entretanto, é marcado pela escassez de órgãos para doação, fato que refuta a premissa do biólogo acerca dos civilizados. Nesse contexto, faz-se urgente avaliar as causas dessa questão: a negação presente no seio familiar e o descaso governamental.

Nessa perspectiva, é lícito postular que os dilemas religiosos e a dificuldade em compreender o conceito de morte encefálica contribuem para a negação da família, que é responsável por autorizar as doações. A crença em uma divindade alimenta a esperança de que um milagre possa reverter o estado de saúde do potencial doador, o que é cientificamente improvável, uma vez que a morte encefálica causa uma interrupção irreversível de todas as atividades cerebrais. Desse modo, a doação de órgãos é impossibilitada devido à desinformação e à crença em dogmas religiosos.

Por conseguinte, deve-se avaliar a posição precária do Brasil no Democracy Index, índice realizado pelo jornal britânico The Economist, que qualifica o funcionamento das democracias mundiais. No censo de 2019, o país foi qualificado como uma democracia imperfeita com baixo funcionamento de Governo. Dessa forma, conclui-se que os representantes políticos agem em prol de seus interesses privados e coíbem os direitos básicos da população na medida em que negligenciam a busca por políticas públicas que incentivem transplantes de órgãos. Constata-se, assim, um terreno fértil para a permanência da falta de órgãos para doação no Brasil.

É imprescindível, portanto, buscar soluções para esse impasse. Para tanto, compete à Escola promover debates em que sejam discutidos os conceitos de “morte encefálica” e “doação de órgãos”. Essa ação deve ser feita por meio contratação de profissionais especializados - médicos e enfermeiros, principalmente - com fito de instruir os alunos acerca da temática. Outrossim, objetivando confrontar o descaso das autoridades, urge que ativistas políticos realizem mutirões através da mobilização popular em vias públicas e em redes sociais. Desse modo, o processo de eliminação previsto por Darwin será combatido uma vez que tais medidas difundirão um sistema de saúde eficiente na sociedade.