Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 18/09/2020
Segundo o escritor Franz Kafka, a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana. Nessa perspectiva, a doação de órgãos surge como um auxílio solidário imprescindível, capaz de transformar e salvar a vida de pessoas que necessitam de um transplante. Todavia, existem empecilhos que dificultam esse processo no Brasil, relacionados à questão religiosa e à falta de conhecimento e informações pelas famílias, impactando na crescente recusa da doação.
Convém salientar, primeiramente, que cerca de 83% da população brasileira se reconhecem como adeptos ao cristianismo, de acordo com IBGE. Nesse sentido, a crença em um Deus capaz de realizar milagres mediante a fé, orações, jejuns e votos, e por sua vez, na reversibilidade de um quadro diagnóstico crítico, impede a autorização familiar da retirada de órgãos de pacientes. Tal expectativa, fundamentada em trechos bíblicos que expõem a cura de enfermos, associada ao desconhecimento clínico, é determinante no atrasos de cirurgias de transplante. Essa realidade confirma o estudo do filósofo Durkhein, no qual o fato social consiste em maneiras de agir e pensar que exercem forças sobre o indivíduo, logo, os princípios religiosos atuam nas decisões das famílias brasileiras. ,
Outrossim, destaca-se que a falta de conhecimento e informações corrobora para o desconhecimento sobre as circunstâncias em que a doação de órgãos é autorizada. No Brasil, o transplante é realizado em casos de morte encefálica, ou seja, quando houve a parada definitiva e irreversível do cérebro e do tronco cerebral, em consequência de traumas violentos e acidente vascular cerebral, provocando a falência de todo o organismo em poucos minutos, evidenciando a necessidade de uma ação rápida. Muitas vezes não há a troca de informações entre a equipe médica e a família, abrindo espaço pata tabus e o desconhecimento do procedimento, bem como a sua importância. Dessa forma, a exposição desse assunto pelos meios de comunicação e o incentivo a novos doadores ainda são escassos.
Portanto, é visível que o obstáculo da desinformação precisa ser superado com o fito de aumentar as doações de órgãos no Brasil. Assim, é dever da Organização Mundial da Saúde, em parceria aos canais midiáticos, promover estudos interativos com a população, fornecendo todas as informações necessárias para a realização do procedimento, bem como criar um canal de suporte de ajuda às famílias nos dilemas e dores que envolvem a realidade. É fundamental, que campanhas sejam divulgadas nos canais de comunicação, como internet e televisão. Além disso, os médicos devem ser instruídos à apresentar o passo a passo do procedimento, bem como os benefícios do ato, que extrapola o clínico, e abrange a solidariedade. Desse modo, a doação de órgãos na sociedade brasileira deixará de ser um tabu.