Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 26/09/2020
Segundo o Princípio da Maior Felicidade do filósofo John Mill, as ações que devem ser tomadas são aquelas que trarão maior benefício para toda a humanidade. Sob essa visão utilitarista, a doação de órgãos pode ser entendida como um dever moral, uma vez que evita o sofrimento e a morte de muitos necessitados. Entretanto, no Brasil, essa ação enfrenta dilemas como a carência de doadores e de estruturas que possibilitem eficiência na coleta e no transporte de órgãos.
Primeiramente, o individualismo presente na sociedade prevalece, dificultando a realização dessa contribuição altruísta. Para o sociólogo Zygmunt Bauman, a atual modernidade líquida é caracterizada por ações movidas pelos próprios interesses individuais. Nesse contexto, de tempos líquidos, as relações pessoais estão cada vez mais frágeis, o que contribui para o impedimento da comunicação entre potenciais doadores e suas famílias. Soma-se a isso, a desinformação sobre os procedimentos das doações, responsável pelo fortalecimento de mitos -por exemplo de que algumas religiões são contra- e do tabu a esse respeito. Assim, a oferta de doações não é suficiente para acompanhar a demanda por órgãos.
Em segundo lugar, os hospitais brasileiros do sistema público de saúde não estão equipados devidamente para atender todos os pacientes que necessitam de doações. Isso ocorre porque o processo de transporte, coleta e transplante de órgãos devem ser feitos de maneira rápida e segura, por profissionais especializados, a fim de evitar a perda do material. Nesse sentido, os equipamentos essenciais para esse processo concentram-se em grandes cidades, locais mais apropriados de estruturas, avolumando as filas de espera.
Diante disso, é fundamental que medidas sejam tomadas para combater as dificuldades relacionadas a doações de órgãos no Brasil. Portanto, compete ao Ministério da Saúde divulgar propagandas educativas nas mídias sociais e televisivas, cujo conteúdo vise desmistificar o processo de doação aos cidadãos e promover o diálogo com a família sobre o desejo de doar, com o objetivo de incentivar a empatia e o altruísmo. Além disso, cabe ao Ministério da Educação (MEC) em parceria com os conselhos profissionais municipais de medicina, a formação de profissionais capacitados pra lidar com as adversidades das doações de órgãos, por meio de cursos de atualização, para oferecer melhor atendimento aos necessitados. Por fim, a partir dessas ações será possível alcançar o Princípio da Maior Felicidade, como almejado por John Mill.