Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 30/09/2020
A lenda de São Cosme e Damião conta que, após a amputação da perna de um velho, transplantaram nele o membro de um soldado morto no mesmo dia. Nesse sentido, a concretização dessa história na contemporaneidade é observada no crescente número de órgãos doados no Brasil, os quais se tornaram essenciais para a elevação da qualidade de vida da população. No entanto, evidenciam-se, ainda, obstáculos para a manutenção dessa realidade como o número de receptores superando o número de doadores e a falta de informação das famílias sobre a morte encefálica.
Em primeiro lugar, o Artigo V da Constituição Federal Brasileira decreta o direito à vida. Entretanto, a escassez do número de doadores que possam atender às demandas de receptores revela uma clara manifestação da utopia constitucional, visto que a importância da doação não é devidamente reconhecida pela sociedade brasileira. A exemplo disso, a Campanha de Incentivo à Doação, lançada pelo Ministério da Saúde, a qual representa uma constância das instituições em sensibilizar a população para o incentivo do transplante de órgãos.
Além disso, a ausência de informação dos familiares sobre o significado da morte encefálica como um problema irrecuperável representa um empecilho para a doação. Prova disso é a recusa de 43% dos familiares para o oferecimento de órgãos dos seus parentes após a morte cerebral, segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Dessa forma, o desconhecimento desses indivíduos sobre a irreversibilidade dessa causa de óbito contribui para o aumento da recusa familiar e uma maior dificuldade de garantir órgãos transplantados para vítimas necessitadas.
Para que a manutenção da qualidade de vida da população brasileira possa otimizada pelo fornecimento de órgãos são importantes medidas interventivas. Para isso, o Ministério da Saúde, em conjunto com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, deve atuar no investimento em campanhas que possam divulgar a importância da doação de órgãos, as quais poderão ser concretizadas por meio da divulgação de histórias de indivíduos que foram impactados positivamente por esses trabalhos. Desse modo, também é importante a atuação do mesmo ministério na capacitação de profissionais de saúde habilitados para conversar com familiares de vítimas de morte encefálica, auxiliando na compreensão dessa causa e, principalmente, colocando como alternativa a transplantação de partes do corpo do falecido encefálico como uma importante forma de salvar várias vidas, as quais poderão confortar outras famílias brasileiras.