Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 02/10/2020

Transplante é, por definição, o recebimento e implantação de órgãos humanos a partir do corpo de indivíduos que não possuem mais funções cerebrais. Embora essa ação vise somente o bem comum, a ausência do diálogo familiar e a falta da sensibilidade hospitalar em pedir para que a família do falecido faça a doação são fatores que dificultam a distribuição de tecidos para quem precisa. Diante desse cenário, não há dúvidas que seja preciso intervir nesses quadros para reverter tal situação.

Em primeiro plano, não é exagero afirmar que um dos empecilhos para doação de órgãos no país é a falta de diálogo familiar a respeito de qual atitude tomar caso uma pessoa chegue a falecer. A alegoria da Caverna, proposta pelo filósofo Platão, representa como o medo do novo ou de encarar desafios impede que as pessoas desfrutem daquilo que não conhecem. No quesito doação de órgãos não é diferente, sendo que os parentes entre si possuem o receio de falar sobre o que fazer quando alguém do convívio morrer por imaginar que isso irá induzir a perda. Mas, é a abordagem desse conhecimento se a pessoa pretende ou não doar seus tecidos que evita uma problematização futura.

Outro fator que também pode ser considerado nessa perspectiva é o fato de que a forma como os profissionais da saúde dão a notícia da morte e da possível doação de órgãos para os familiares do falecido influencia diretamente no sucesso ou não do ato. Pois no momento de dor pela perda o raciocínio do parente fica comprometido por não acreditar que nunca mais vai ver quem amava e tudo o que ele deseja é respeitar o corpo e a memória de quem partiu. Então, a ideia de tirar os órgãos remete a uma invasão na pessoa morta e o receio de que o corpo estará deformado para o funeral. Dessa forma, é preciso que os médicos e enfermeiros tenham cautela na hora de pedir a doação para transplantes.

Esse retrato preocupante da realidade brasileira evidencia, portanto, a necessidade que as pessoas possuem em tratar a doação de órgãos como um assunto pertinente à sociedade para que o ato possibilite uma vida melhor a quem necessita de transplante. Esse pensamento só se tornará eficaz se o Governo Federal, por meio do Ministério da Educação, associar universidades que possuem o curso de Jornalismo com a Mídia em geral para alertar a população acerca dos benefícios oriundos para quem doa e recebe tecidos. Isso se efetivará se os universitários encarregados de produzir vídeos, textos, manchetes ou outdoors que influenciam as pessoas a conversar no ambiente familiar sobre o assunto e dizer se é ou não a favor do ato. Em troca disso, as mídias receberão um desconto, por parte do governo, sobre os impostos que pagam. Assim, no momento em que alguém da família falecer as pessoas estarão mais preparadas para lidar com a situação.