Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 07/10/2020
No Egito Antigo era comum a mumificação dos mortos, nesse processo retirava-se os órgãos para mantê-los conservados até que o falecido “voltasse” para o corpo. Atualmente, não diferente desse período, os órgãos são muito valorizados, tanto na religião quanto, principalmente, na saúde. Sob essa ótica, compreender os dilemas das doações é substancial para a promoção de resoluções, uma vez que a falta de informação do corpo social e o descaso estatal são notados.
É preciso considerar, antes de tudo, que o desconhecimento acerca do transplante de órgãos ocasiona uma baixa dessa ação. Nesse sentido, pode-se destacar paradigmas religiosos, superstições e medo como fatores que impedem os familiares de autorizarem a retirada dos órgãos. Prova disso, é que, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), a taxa de recusa dos parentes é de 45% no país. Tal contexto se relaciona com a “Alegoria da Caverna” do filósofo Platão, o qual salienta que a incorporação do senso comum, por parte do indivíduo que não conhece o diferente, proporciona a falta de empatia. Por essa razão, urge a necessidade da mudança de concepções da sociedade para sanar tal problemática.
É válido ressaltar, ainda, a ausência de assessoria técnica nos centros de saúde nacionais. Dessa forma, a falta de investimentos públicos faz com que não haja a correta manutenção do potencial doador, dos equipamentos utilizados e o empenho da equipe hospitalar. Realidade essa que não deveria existir, visto que 95% dos transplantes são feitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), no Brasil. Tal conjuntura, em consonância com a Teoria Contratualista do filósofo Hobbes, o qual enfatiza que Estado e homem devem fazer um contrato social para que ambos possam se desenvolver, demonstra a urgência da ação de ministérios específicos para minimizarem essa contenda.
Evidencia-se, portanto, que a ausência de entendimento da população atrelada à negligência do governo são fatores que acentuam os impasses da doação de órgãos. Para contrapor as situações, o Ministério da Educação deve elucidar as famílias quanto a importância desse ato de contribuição, por meio de aulas e palestras nas escolas, as quais terão a finalidade de atingir as classes mais novas, uma vez que os alunos serão possíveis doadores. Outrossim, cabe ao Ministério da Saúde, em ação conjunta ao Poder Executivo, investir em serviços básicos do SUS, por intermédio de mais verbas, a fim de aperfeiçoar o sistema de doações e torná-lo mais eficaz. Destarte, será possível conter tais impasses, na medida em que os legados de Platão e Hobbes serão alcançados.