Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 13/10/2020

A série “Sobre pressão”, transmitida pela Rede Globo, apresentou em um de seus episódios um dilema entre o médico, com visão racional, e uma mãe, por sua vez, com visão emocional e confiante, sobre a doação de órgãos de um paciente que já não apresentava atividades cerebrais. Fora do âmbito ficcional, situações como essa são comuns, tornando-se apenas uma parte dos inúmeros desafios para doação de órgãos no país. A consideração desse ato como um “tabu” pela sociedade e sua falta de valorização e visibilidade implicam em consequências que mudam o número de milhares de vidas.       Inicialmente, é preciso entender as causas que impedem a doação de órgãos. Dados do Ministério da Saúde demonstram que a negativa familiar é um dos principais motivos da não doação. Isso ocorre porque muitas pessoas têm seus valores fundados em religiões que repudiam tal ato, principalmente pelo aspecto emocional ao se encontrar diante uma situação envolvendo um ente querido. Unindo-se ao fator anterior, a falta de informação acerca do assunto faz com que sejam criados mitos a seu respeito, o que barra a inclusão dos possíveis novos doadores.

Ademais, a falta de estrutura do sistema de saúde potencializa o déficit de logística do processo, visto que a doação possui partes e cuidados complexos e necessita de organização e profissionais capacitados. Como consequência, destaca-se a má utilização dos órgãos, levando em conta a sua fragilidade e as distâncias que devem percorrer, resultando em sua ineficiência. Pela falta de doadores necessários, as filas para transplante torna-se cada vez maiores, e dependendo da demanda em cada região, casos urgentes podem não obter respostas, culminando em riscos vitais, incluindo a morte. Tal circunstância alimenta o mercado negro do tráfico de órgãos, ligado à ilegalidade do tráfico de pessoas.       Dado o exposto, a doação de órgãos torna-se crucial para a manutenção da vida. Portanto, é dever do Governo Federal, por intermédio do Ministério da Saúde, investir em infraestrutura e logística que favoreçam o ato da doação, e contratar profissionais capacitados de modo a aprimorá-lo. Não obstante, é necessário utilizar o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação, para produzir propagandas e projetos que informem e conscientizem o cidadão à respeito da doação. Com essas medidas, o Brasil caminhará para um país que contribui ainda mais com direito à vida, previsto na Constituição Federal.